As verdades que os homens contam: O paradigma da cama arrumada

Por: Edu | Em: As verdades que os homens contam | 18 de julho de 2012

Júlio tinha fama de bagunceiro. Desde pequeno, sua mãe lutava para fazer com que ele arrumasse a cama todas as manhãs, antes de ir para a escola.”Mas que menino desorganizado!” – dizia ela. Perdido em seus pensamentos, Júlio não queria arrumar a cama de jeito nenhum. E foi assim durante anos. Júlio foi crescendo, chegou até a faculdade e começou a namorar Roberta, que tinha mania de organização. Casaram numa festa linda e organizada, tudo minuciosamente detalhado e executado conforme Roberta havia planejado.

Após seis meses de casados, Roberta, que não conhecia muito bem o lado bagunceiro de Júlio, começou a ficar cansada de não encontrar nada no lugar. Por mais que ela pedisse, Júlio parecia não ouvir e pouco se importava se a casa estava bagunçada. Roberta resolveu conversar e dar um basta na situação. Ou Júlio tomava jeito, ou o casamento chegaria ao seu fim.

- Júlio, precisamos conversar seriamente.
- Meu amor! Adoro sua voz, sabia?
- Eu estou falando sério, temos um problema a resolver.
- Posso cheirar seu pescoço antes? Amo seu cheiro, seu perfume… É como se eu respirasse vida.
- Não, não pode. Escuta só: eu estou cansada. C-A-N-S-A-D-A de mandar você arrumar as coisas e você me ignorar completamente! Não aguento mais chegar do trabalho e encontrar a cama do mesmo jeito, como se eu não tivesse pedido a você pra arrumar antes de ir pro trabalho. E as taças de vinho de ontem? Ainda estão no mesmo lugar, Júlio! Isso é um absurdo, assim não dá pra gente continuar casado!
- Calma, amor, deixa eu explicar. É o seguinte…
- Não tem explicação, Júlio! Nenhuma desculpa vai colar.
- Você não quer ao menos ouvir o que eu tenho a dizer?
- Seja breve.
- Sabe por que eu deixei as taças de vinho no mesmo lugar?
- Não e acho que não quero saber.
- Vou te falar mesmo assim. Deixei porque na noite de ontem fizemos seis meses de casados. Seis meses desde que minha vida mudou da água pro vinho. 180 dias desde que percebi que não vou estar mais sozinho. E eu queria viver esse momento por cada segundo possível. Queria acordar, olhar para aquelas taças, ver o restinho de vinho no fundo, ver o seu batom marcando a parte em que sua boca encostou e ter certeza de que não foi um sonho. Ter você comigo me faz duvidar da realidade o tempo todo.
- E a cama? Por que você nunca arruma a cama?
- Porque a cama é o nosso lugar sagrado. É onde a gente deita, dorme, conversa, esquenta os pés um do outro, se ama, ignora os problemas e pensa no futuro. É onde a gente vai passar 1/3 de toda a nossa vida juntos.
- E isso é desculpa pra não arrumar?
- Quer saber por que eu não arrumo?
- Tá, fala.
- É que gente feliz não arruma a cama. Cama bagunçada tem muito mais vida. Quem esteve nela sabe o que aconteceu só de olhar a posição do edredon amassado, o formato dos travesseiros. A gente olha e sabe onde cada um esteve, sente o calor trocado. Mesmo que tenha sido só uma noite de sono profundo, a gente lembra. Lembra que o sono foi bom, que o outro estava ali. E arrumar a cama logo cedo faz com que tudo isso suma num piscar de olhos, sabe?
- E por que você arrumou a cama algumas vezes quando eu não morava com você?
- Essa é a resposta. Você não estava aqui sempre. Sem você dormindo aqui, as noites eram infelizes. E eu arrumava a cama pra esquecer que dormi sem você.
- Acabei de me lembrar de uma coisa.
- o quê?
- Nem tomamos café da manhã ainda. Vamos?
- Vai preparando que eu vou arrumar a cama, como você queria.
- Não arruma, deixa assim. Olhei melhor e vi que ela está do jeito que eu quero.

Deixe seu comentário