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Mais do que nunca, quem acompanha o futebol brasileiro tenta achar alternativas e soluções para nos resgatar do marasmo completo. O campeonato brasileiro não é bonito de se ver, a Seleção Brasileira leva sete gols em uma semifinal da Copa do Mundo em casa – a ficha ainda não caiu – e por alguma razão nossos Estaduais demoram 4 meses.

Pois bem, o continente preferido para buscar essas soluções é o europeu. É futebol, é organizado e o nível é o melhor possível (em algumas ligas). Mas será que isso é o ideal? As ligas europeias são dominadas por poucos times, existe um abismo gigante entre os grandes e pequenos – na Espanha é onde isso mais fica claro – e não é raro aparecerem escândalos de corrupção e péssima gestão: Barcelona e Real Madrid juntos devem quantidades astronômicas.

Pessoalmente, acho que exemplos muito melhores estão em outro lugar. O esporte é diferente, mas muito se aplica. A NFL é disparada a liga mais valiosa do mundo. Se você somar a receita da Premier League, mais a Bundesliga (Alemanha), La Liga (Espanha) e ainda der de troco o Campeonato Brasileiro mais a Serie A (Itália), não encosta na NFL.

Além da força, comportamento de mercado e tamanho de cidades nos aproximam mais dos americanos que dos europeus. É muito legal falar que os times pequenos e médios brasileiros tem que ser como o Leicester, que vai ser campeão inglês em algumas semanas, e é de uma cidade de 330 mil habitantes. Só que o estádio deles de 32 mil pessoas enche jogo sim e outro também. Em uma cidade de 500 mil habitantes, o Santos, um time 30 mil vezes maior e com mais história que o Leicester, coloca 5 mil de média na Vila Belmiro.

Ok, então vamos parar de bla-bla-bla e vamos ao que a NFL ensina para nós.

Liga dos Clubes

Na verdade, o Brasil está sozinho nessa de ter uma Confederação organizando o Campeonato Nacional. Não há um argumento racional para deixar o Brasileirão na mão do Presidente da CBF, seja ele qual for hoje, e não na mão dos clubes. Na NFL, as trinta e duas franquias mandam, mudam regras de jogo, negociam com a TV, com a fornecedora de material esportivo e assim atentam pelos próprios interesses. A NFL tem até um comissário, que é como se fosse um presidente. Só que no momento que as franquias acham que esse comissário está mandando mal, não tem nem impeachment, é rua logo. Se existissem tucanos e petistas em uma discussão de futebol, até o pedido por uma liga que seja liderada pelos clubes uniria eles.

 

Os clubes têm donos, e não presidentes

Ok, essa é uma ideia mais complicada aqui no Brasil. Nossa experiência com Corinthians e MSI não foi interessante, mas também porque o Corinthians foi vendido para pessoas que, desde o começo, se sabia que não eram da melhor índole. Só que, se formos analisar nosso retrospecto de cartolagem, tem coisa pior. Muito pior.

Para ficar em um exemplo, se o Santos tivesse dono, o Neymar nunca sairia por 17 milhões de euros. Porque até um cego sabia que ele valia muito mais e que não vender ele no auge do mercado era como ter valiosas ações da Vale mas só decidir vender quando a barragem de Mariana foi pro saco.
Um dono de clube só quer o melhor para esse clube porque se não seu investimento vai para o buraco. O presidente do clube também pode querer o melhor pro clube, mas se ele faz burrada, contrata mal, paga altos salários e deixa o clube endividado, seu mandato termina e ele vai para casa viver a vida dele sem problemas. O palmeirense lembra bem da gestão Luis Gonzaga Belluzzo, que endividou o clube, não ganhou nada e depois de mais uma gestão ruim (Arnaldo Tirone) o clube foi rebaixado.

Aliás, muitos presidentes nem salário recebem, mesmo com um trabalho estressante e complicado. Ou seja, o dono do cargo tem que basicamente ser uma pessoa iluminada e ultrasolidária, já que ele só se ferra lidando com torcedor, agentes, conselheiros e não ganha nada além de um parabéns caso não tenha feito uma gigantesca burrada. Ou seja, tudo incentiva eles a procurarem mamatas.

“Ah, mas se o dono for um idiota que só quer saber de dinheiro e f/*$ o clube?” Melhor ainda para boicotar. Se você para de comprar ingressos e produtos oficiais e fica claro que o boicote não irá parar, o dono terá que vender. Por diversas vezes na NFL donos que não contavam com apoio da base de torcedores foram obrigados a vender. Agora, e se o presidente é ruim e tem um boicote nos produtos e nos ingressos? Quem se ferra é o clube, o presidente continua na mesma, sem perder um centavo.

Nos últimos anos houve um avanço no Brasil na gestão profissional de clubes de futebol, com o Flamengo e o Palmeiras de Paulo Nobre aparecendo na liderança. Mas é pouco e eles ainda estão na mão de conselhos e de articulações políticas. Há como melhorar mais: venda para empresários ou então abertura de ações para torcedores, como o Green Bay Packers faz. E de preferência que esses donos tenham visão, profissionalizem o clube, tratem bem o consumidor/torcedor e promovam o futebol brasileiro. É claro que não é perfeito esse modelo. Mas é melhor que o modelo que temos hoje.

Ajuda da tecnologia

Assim como com a liga dos clubes, acho que ninguém discorda disso a não ser os jurássicos da FIFA. Na NFL o árbitro tem contato direto com uma central que analisa todas as imagens do jogo e corrige possíveis erros. Claro que o jogo não é perfeito e ainda há erros, mas você filtra muito e raramente eles influenciam tão diretamente no resultado do jogo como no nosso querido esporte bretão. No futebol é raro um jogo que não tenha uma falha da arbitragem já que confiamos em três coitados que precisam a olho nu apitar um jogo rápido em um campo gigante. Que o quarto árbitro esteja grudado em uma TV e não na lateral falando com treinador é mais básico que uma bola para jogar o jogo.

Finais, e não pontos corridos

A discussão sobre pontos corridos e mata-mata é algo que no Brasil toma proporções de “Fora Dilma” e “Não Vai ter Golpe”. Talvez escreva sobre isso em qualquer outro lugar porque aqui é para eu falar de futebol americano. E a lição que temos da NFL é que o Super Bowl é o Super Bowl porque além dos shows, dos anúncios e de todo o frufru, é o confronto entre os dois melhores times da temporada e dali só um sai feliz, com o caneco e com seu nome na história.

E isso é o legal dos esportes. Roger Federer não seria Roger Federer sem seus confrontos com Rafael Nadal e vice-versa. Nós nos lembramos de 30 finais de campeonato diferentes enquanto eu te desafio a lembrar em que jogo o São Paulo se sagrou Campeão Brasileiro de 2007. Resposta: contra o América de Natal, time rebaixado com a pior campanha em um jogo da 30ª sei-lá-o-quê rodada.

Me diz como é possível em um campeonato esportivo que uma equipe se sagre campeã contra uma equipe aleatória em um jogo que divide a atenção com outros 10 em uma rodada que não é a última? Ou seja, houve ainda campeonato depois daquilo. Pensando na organização só e não apenas na emoção, você retira valor do campeonato porque no momento da decisão, ele divide atenções com outros jogos. E o jogo decisivo pode ter uma equipe que não está à altura do palco.

Por isso que os campeonatos de pontos corridos vem e vão e nós lembramos só de alguns pontuais, caso seu time não tenha sido o campeão. Enquanto em uma final, o fã de futebol está na frente da TV, seja torcendo, secando ou simplesmente vendo, os dois melhores times duelando, frente a frente, por um troféu. A final entre Palmeiras e Santos na Copa do Brasil foi comentada, recomentada e regurgitada. O Corinthians ganhou um título 10x mais importante logo antes e ficou em segundo plano no final do ano.

Eu sei que os corridistas têm argumentos como calendário, organização – esse argumento então é risível – mas isso não cabe aqui agora e prometo entregar um texto sobre isso. Mas a lição da NFL é clara: a final junta as pessoas na frente da TV – e os patrocinadores amam isso -, cria expectativa e momentos históricos para o esporte.