A semana 3 da NFL teve diversos jogos sensacionais, emocionantes, com lances divertidos e atuações marcantes. Mas não é de nada disso que vou falar neste post para este estimado site. Porque o que foi marcante mesmo nos jogos de domingo e de segunda foi a onda de protestos após uma declaração polêmica de Donald Trump. Mais uma.

Você estava em uma caverna e não entendeu nada? Tudo bem, eu explico.

Como tudo que é jogado para o campo da política, a história virou uma briga de narrativas de dois lados que não tem interesse nenhum de botar uma mesa no meio para “negociar”. Por isso temos que voltar no tempo para explicar tudo isso. Para todo ponto, eu vou colocar um contra-ponto e assim você pode formular sua opinião.

A polêmica do hino

Para começar desde o começo mesmo: o hino americano é executado antes de todos os jogos da NFL, mas diferentemente dos jogos do Campeonato Brasileiro, as pessoas ouvem e há uma verdadeira cerimônia em torno disso, com a presença de militares e algumas vezes até aviões ou helicópteros do Exército. Ou seja, um verdadeiro momento patriótico, que você pode achar uma coisa maravilhosa, muito cafona ou algo no meio disso.

Protestos no esporte não são uma novidade. E no hino também não. O mais famoso deles é o punho erguido de Tommie Smith e John Carlos na Olímpiada de 1968.

Você pode achar isso um desrespeito, ou uma forma de protesto válida e pertinente. E essa discussão voltou a tona com Colin Kaepernick. O quarterback do San Francisco 49ers começou, ainda na pré-temporada de 2016, a sentar e depois se ajoelhar no momento do hino, segundo ele, para chamar a atenção para a desigualdade socioeconômica da população negra nos Estados Unidos e também para a violência policial em bairros pobres. Alguns jogadores de seu time e de outros times se juntaram ao protesto, mas nunca chegando a ser um protesto massivo.

Só que isso obviamente gerou atenção e discussões. E mais uma fenda se abriu entre as pessoas que achavam que havia sentido na ação e quem não entendia como um desrespeito à bandeira, o hino e o momento de homenagem aos militares vivos e que morreram em combate.

Muitos viram essa ação de Kaepernick como oportunista: o quarterback, que tinha incendiado a liga em anos anteriores, vinha em uma decadência clara em seu jogo e quando começou seus protestos, não era mais o titular dos Niners, apesar de seu reserva, Blaine Gabbert, ser um jogador medíocre em seus melhores dias.

E o próprio Kaepernick não ajudou sua imagem quando foi resgatada uma foto dele usando meias que tinham porcos com distintivo policial. A palavra “porco” é uma forma pejorativa para chamar policiais nos Estados Unidos. Ele se explicou, dizendo que usou as meias para se referir apenas aos policiais corruptos que faziam um mau serviço à comunidade que deviam auxiliar. Ou quando usou uma camiseta com uma imagem de uma reunião entre Fidel Castro e Malcolm X, ativista norte-americano, e defendeu Fidel para um repórter de origem cubana de um jornal de Miami, que obviamente não gostou de nada disso.

Bom, disse tudo isso por quê? Porque não dá para entender os protestos deste domingo e segunda sem entender a história de Kaepernick e como seu nome gera reações bastante fortes nestes dias.

Hoje ele está sem equipe e a briga de narrativas também chega até esse ponto. De um lado, dizem que ele foi punido por sua posição política, o que é em parte verdade, mas nem todos os donos são republicanos que fumam charuto acendendo com nota de 100. Do outro lado, se fala da parte técnica, o que também tem verdades: ele é um quarterback que tem problemas com precisão nos passes e jogar dentro do pocket, algo vital para um jogador da posição. Mas há uns 10 piores na NFL contando titulares e reservas. Inclusive ganhando jogos!

Neste fim de semana, Donald Trump trouxe o assunto dos protestos na hora do hino de volta, mesmo que eles estivessem perdendo a atenção da opinião pública e com cada vez menos “adeptos”. Em um evento no Alabama, ele proferiu as seguintes palavras:

“Você não amaria ver um desses donos de time da NFL, quando alguém desrespeita a bandeira, dizer ‘tira esse filho da put** do campo agora. Fora! Ele está demitido. Demitido.”

Mesmo que son of a bit** seja menos forte para eles que filho da put* é para nós, o sentido é semelhante e é obviamente uma fala que um Presidente não pode ter nunca.

E isso gerou uma ação massiva dos jogadores da NFL, ganhando o apoio de donos e treinadores, algo que não tinha acontecido com Kaepernick. Mesmo Jerry Jones (foto inicial), que apoiou Trump e é dono de uma franquia texana (Dallas Cowboys), estava em campo com seus jogadores na hora do hino. Você pode ver os diferentes tipos de protesto aqui.

Mas é óbvio que a discussão não para por ai. Muitos dos jogadores foram vaiados ao fazer esse protesto e alguns atletas se colocaram de forma contrária a fazer um protesto na hora do hino. E teve a história de Alejandro Villanueva, do Pittsburgh Steelers, que serviu o Exército Americano, não queria “furar” o protesto de seu time, que ficou no vestiário na hora da canção, mas acabou sendo capturado na saída do túnel prestando sua homenagem.

A situação é tão maluca que ele pediu desculpas por sua postura nesse momento, mas justamente por essa “escapadinha”, ele se tornou o jogador que mais teve seus produtos vendidos da NFL. Isso é basicamente um milagre para um jogador de linha ofensiva, uma posição importante mas cujos atletas tem os nomes menos conhecidos do ataque da maioria das franquias.

Ufa, a situação inteira está explicada agora. Como todas as discussões recentes, temos dois lados bem claros que muitas vezes escondem informações e não tem um compromisso com a verdade, só com seu lado. Espero que este post tenha colaborado para apresentar o panorama completo.

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