You talkin’ to me?

É provável que até mesmo aqueles que nunca assistiram a Taxi Driver conheçam a famosa frase dita por Travis, personagem de Robert De Niro. Afinal, cultura pop é isso, quando algo extrapola sua mídia e torna-se um ícone poderoso, repetido e homenageado a exaustão. E 40 anos depois Taxi Driver segue sendo uma das obras mais influentes e conhecidas do cinema, a obra prima de Martin Scorsese em uma época onde Hollywood era realista e crua.

O interessante de grandes clássicos é notar o que ele representa para diferentes pessoas. Cada um acaba criando sua própria linha de raciocínio e tirando um significado. Comigo não seria diferente e Taxi Driver veio a se tornar um dos meus filmes favoritos, uma verdadeira lição sobre solidão e suas consequências.

Travis Bickle é um personagem que instiga e provoca o espectador. Ler suas ações é perceber que não é preciso muito para um ser humano ser quebrado pela sua própria solidão e angústia. É aí que pra mim Taxi Driver surge como um filme brilhante, um trabalho cirúrgico de Martin Scorsese com uma atuação de gala de Robert De Niro, tão boa que me faz perdoá-lo sempre que ele da as caras em alguma comédia romântica.

Foto: Taxi Driver (1976) – Reprodução

Aqui é preciso separar a solidão física da espiritual, enquanto uma pode ser bem desenvolvida, a outra pode ser extremamente perigosa. A física é necessária para nossa própria saúde mental, afinal, mesmo que tenhamos relacionamentos estáveis, passar um tempo sozinho serve como remédio para que possamos treinar o convívio com outras pessoas. Os anos que morei sozinho foram essenciais para eu aprender certas coisas e sentir falta de outras.

Já a solidão espiritual é como um vírus que se desenvolve aos poucos, e com a ajuda externa (sociedade, pressões do dia-dia, familiares e amigos que desistem de você e também se afastam) cresce a ponto de você esquecer quando foi que começou a se isolar. A solidão espiritual te faz acreditar que você não se encaixa mais fora dessa bolha criada em sua mente. O próximo passo é criar uma régua, onde você passa a medir tudo e todos segundo seus princípios morais e de verdade.

Com Travis foi assim. Após voltar do Vietnã ele passa a trabalhar como taxista, já que tem problemas pra dormir. Travis parece não encontrar sentido em nada que não seja seu próprio eu, assim, ele se arrisca indo onde taxistas geralmente não vão e transforma sua vida em uma rotina tão absurda que nem ao menos consegue mais distinguir um dia do outro.

Os dias vão ficando iguais

Aliás, essa pra mim é uma das frases mais terríveis de ser ouvida. Quantas e quantas vezes nos sentimos como Travis… faça um teste: o que você fez na última quinta feira? Sem perceber, os dias vão ficando iguais, e você vai se fechando… e os dias vão ficando iguais, e você vai se fechando…

A terrível solidão que Travis se encontra explode quando ele tenta se relacionar com outra pessoa, é então que notamos a gravidade da mesma. É como se ele não soubesse mais interagir com ninguém, vide sua obsessão com Betsy e depois Iris, simplesmente não sabe mais entender o sentimento alheio.

Como obra de arte que é, Taxi Driver permanece vivo, atual e intacto. Não existe tempo capaz de destruí-lo. Que mais e mais pessoas possam ser impactadas por esse filme e tirem suas próprias conclusões a respeito do tema. E aí, qual a sua?

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