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Garanto que não apenas eu, mas toda uma geração que viveu a adolescência nos idos dos anos 90, considera Trainspotting um dos 3 filmes que ajudaram a moldar o nosso caráter, no meu caso, os outros dois são Clube da Luta e Pulp Fiction, mas o Trainspotting me pegou por que ele conta a história de jovens, vivendo no subúrbio, tendo poucas oportunidades na vida e lidando com todo tipo de experiências ruins que o submundo das ruas oferece: drogas, violência, morte.

Eu acredito que o que te faz gostar muito de um filme é justamente conseguir se conectar a ele, seja aos personagens, seja pela história que está sendo contada, e que de alguma forma te faça pensar na sua própria vida e lhe ensine alguma lição. Por outro lado, existem histórias em que você não se identifique de forma alguma, mas que são contadas de uma forma tão interessante, que mexem como você mesmo assim. Trainspotting 2 consegui transitar facilmente entre esses dois mundos.

Por considerar o primeiro filme um clássico, talvez a ideia de retomar a história de Mark, Spud, Sick Boy e Bergbie 20 anos depois, talvez fosse uma ideia arriscada, mas o diretor Danny Boyle (que também dirigiu o ótimo Quem quer ser um milionário?), não pensou assim, e reuniu a trupe novamente pra mostrar pra gente como a vida deles está, duas décadas depois.

 

CHOOSE LIFE

Trainspotting trazia aquela frase clássica: “Escolha a vida”, que de certa forma era uma crítica ao modo como vivemos, dependentes de coisas materiais, emprego, e da opinião de terceiros, e ao mesmo tempo simbolizada a luta dos personagens contra as drogas. Já em Trainspotting 2, a pegada é mais ou menos a mesma, mas de uma forma até mais intensa, já com os personagens mais velhos e ainda sem conseguir sair daquela situação de vida, usando drogas e basicamente sendo os trambiqueiros de sempre. ou seja: a vida nunca foi fácil pra esses caras e a história conta o desenrolar dos acontecimentos do final do filme de 1996, quando Mark trai seus amigos e foge com o dinheiro deles. Você trairia seus amigos pra mudar de vida?

O mote desta sequência é: “Houve uma oportunidade, depois uma traição”, e a história é muito bem contada e mais focada no drama da amizade estremecida entre eles, em como as decisões que você toma podem afetar a sua vida, mas principalmente em como os anos podem mudar a sua maneira de pensar e agir. Fica sempre aquela pergunta, e se você tivesse feito tudo diferente?

Musicalmente o filme é impecável, a trilha sonora tem Queen, The Clash, Blondie… e a fotografia, direção e montagem de Danny Boyle são incríveis, mesmo nas cenas onde ele exagera, ele gosta de exagerar mesmo, você lembra da cena do vaso sanitário até hoje, não lembra? Existem outras cenas tragicômicas no estilo Danny Boyle no novo filme, não tão marcantes, mas ainda sim muito bacanas. Além disso, ele faz pequenas inserções no meio da história pra ilustrar uma ideia, parece até aqueles flashbacks de Family Guy, eu particularmente acho genial.

É uma delícia achar as inúmeras referências ao primeiro filme, ouvir novamente a música do Iggy Pop, e ver os rapazes pensando na vida na linha do trem. No geral Trainspotting 2 é uma homenagem a si mesmo, com muito humor negro, cinismo, uma crítica que fica ali nas entrelinhas, e até um pouco melancólico, mas é um filmão da porra!