Para entender o que levou o pacato professor de química do primeiro episódio ao homem que fuzila uma quadrilha inteira no final de Breaking Bad, é necessário ir a fundo nas reais motivações de Walter White ao longo da série. Uma viagem que pode levar a uma compreensão não só melhor do personagem, mas também servir como alerta a nós mesmos.

“Eu fiz por mim“: A frase mais honesta que saiu da boca de Walter White ao longo dos 62 episódios. Finalmente ele confessa para Skyler a verdade por trás de todos os seus atos, horas antes de sua morte em “Felina“. Sua jornada se encerra naquele momento, em frente a mulher que amou, Walter aceita e coloca pra fora que todas as mortes e desgraças que trouxe para todos ao seu redor, foi por uma única coisa: ele mesmo.

Walter viveu uma vida de frustrações e isso é algo extremamente perigoso. É essa dose diária de veneno em nossa alma que vai, aos poucos, infectando tudo ao nosso redor. A frustração por não ter o emprego que você sempre sonhou, por não viajar para países que seus amigos viajam, por não ter o carro do vizinho, por aguentar as comparações com outras pessoas mais sucedidas, por não ser aquilo que te dizem para ser, ou pior: não ser aquilo que você passou a acreditar que deveria ser.

Foi por pensar no EU, e não no NÓS, que Walter abriu mão de certos valores morais e rompeu um limite que seria impossível de ser arrumado. Mas Walter já estava infectado pelo vírus do arrependimento, aquele que te faz rejeitar tudo que existe de mais valor. É o primeiro efeito colateral da frustração. É quando você esquece de quem está do seu lado e passa a viver diante de um espelho, olhando pra si mesmo o tempo todo.

O Deus de si mesmo

Arrependido e frustrado, Walter passa a idolatrar um novo deus: ele mesmo. É assim que ele esquece de seus princípios e valores, ou melhor, passa a distorcê-los para ganho próprio. Nessa distorção da moralidade, Walter passa a usar sua família como válvula de escape, ou seja, o dinheiro sujo que ele ganha a custa da destruição de vidas, é validado pela necessidade de sua família. O quão baixo isso pode ser?

O fato é que Walter White não se importa mais. Ele já está corrompido. Até mesmo o dinheiro perde o valor, engana-se quem acha que tudo que ele fez também foi por um barril cheio de notas de dólares. Walter queria provar a si mesmo acima de tudo que ele poderia ser bom em algo, que pelo menos em uma determinada situação é ele quem da as cartas. Um dos episódios que mais ilustram essa busca por afirmação é Over, o décimo da segunda temporada.

Nele Walter é confrontado por Hank dentro de sua própria casa. Confronto esse que nada mais é do que Hank o impedindo de embriagar o próprio filho. No final desse episódio, após encontrar alguns aspirantes a cozinheiros, Walter resolve agir e então temos a famosa cena “stay out of my territory“. É mensagem passada é “não vou permitir que me pisem em um novo ambiente“. E assim, ele deixa claro que a infecção do seu egoísmo já está mais avançada que o próprio câncer.

O doce e o vegetal

Como David Simon, criador de The Wire, explicou, séries de tv te entregam duas coisas: o doce e o vegetal. O doce são momentos como a morte de Gus ou quando Walter explode o barraco de Tuco. O vegetal é mais difícil de aceitar, requer paixão, análise, envolvimento emocional com uma obra. Breaking Bad é sobre o comportamento humano, até onde um ser humano aguenta antes de ser quebrado, como a sociedade ao seu redor por ajudar nesse desviu, e o quanto nós somos egoístas.

Devemos olhar com admiração para o professor de química dando sua singela aula. Isso é difícil, eu sei, mas é o nos impede de quebrar a barreira que Walter quebrou e despertar o Heisenberg que dorme dentro de nós. Eu, eu, eu, eu… não existe doença pior que essa.

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