Por Thiago Manzo*

Por algum tempo, eu tenho vivido o sonho de todo homem. Eu tenho saído e transado (yeah!!!) com uma atriz pornô. Por vários motivos, eu acabei me apaixonando e nenhum deles envolve o óbvio.

Durante dois anos, eu repeli e afastei todo o tipo de pessoa que se aproximava por medo de me envolver, medo de errar novamente, medo de ser o único que estava realmente se entregando. Quando eu decidi que tava tudo bem e que a vida de solteiro te traz a tranquilidade de chegar em casa a hora que você quiser, e, o sexo sem compromisso com quem você bem entender… eu encontrei ela. Justamente para me divertir. Justamente quando eu não procurava. E uma coisa muito estranha aconteceu. Uma, não. Quatro coisas que ela me mostrou.

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Penelope Cruz em cena de apresentação burlesca no musical Nine (2009)

 

1 — Ela me intimida… e isso me excita

Ter ficado intimidado fez com que eu deixasse de lado o sexo que imaginava e fizesse o sexo que queríamos. Nós transaríamos de qualquer maneira do jeito que a gente tinha vontade. Mas aquela sensação de ‘tem algo de estranho aqui acontecendo’ foi o que fez ela gozar comigo só com penetração. Coisa que não acontecia há anos, de acordo com ela. Ter ficado intimidado deu um sentido de clareza para todas as dúvidas de uma única pergunta: por que estamos apaixonados um pelo outro?

Vamos encarar de frente. Nós íamos foder do jeito que queríamos, foi o que fez a gente se encontrar e passar um fim de semana todo fazendo isso. Literalmente. Eu realizei o sonho de quase todos os homens desse planeta, que é passar uma noite com uma atriz pornô. Só para constar, eu nunca imaginei nem a vi assim. Eu tinha conhecimento dessa parte da vida dela, mas nunca foi um foco. Na verdade, eu nunca sequer vi um filme dela (depois sim, mas nunca façam isso se estiverem na mesma posição, é assustador).

Ela é uma artista burlesca e dançarina. Era disso que a conhecia e sempre admirei. E era isso que me intimidava. Ali estava uma mulher que eu sempre quis. Que era forte. Imponente. E com um olhar de poucos amigos. Então, eu me senti intimidado. Muito. Pelo simples fato de estarmos no mesmo nível sexual, parecia que estávamos competindo um com o outro. E eu travei. Mas, quando eu parei de me preocupar, tudo ficou melhor. E mais desafiador. E qual foi o maior desafio? Aceitar ela como uma mulher. Não só como apenas um desejo sexual. Eu tive que melhorar meu jogo para complementar o dela. E como a gente fez isso? Descobrindo que transar com amor é o melhor sexo que existe.

2 — A rotina do cotidiano se torna excepcional

Tudo é novo no dia seguinte. A nossa rotina pouco é tradicional. Nossa semana se inicia na quarta, para começar. Acordamos lá pelas 11 da manhã, ela por trabalhar de noite como dançarina burlesca, eu por trabalhar escrevendo, e, comandando cozinhas. Ela dança e dança muito. Ela conhece muita gente da noite. Por isso, é impossível organizar uma noite em que eu decida onde vamos porque já está decidido seja pelo trabalho ou porque sempre tem alguma coisa mais legal para fazer.

A real é que nunca sei o que vai acontecer e acabamos que temos os mesmos hábitos, acertamos nossos relógios biológicos porque não tem graça acordar na hora que o outro vai dormir. A rotina não é rotina, é sempre “quando a gente vai descansar de novo”? A gente curte mais tempo juntos, na real.

3 — Minhas fantasias sexuais têm ela como foco

Sexo com Donuts. Pode sim, gente. Vamos ser sinceros um com o outro, amiguinho. Nós temos uma mente suja, podre e pervertida. Tudo que você sempre quis é realizar suas fantasias sexuais mais escondidas. Seja transar vestido como um hamster de chapéu-côco e monóculo ou se besuntar de nutella e rolar no Sucrilhos esperando que sua parceira te lamba inteiro. Mas nunca é sua parceira, não é? Sempre é aquela mina que você nunca vai ver de novo e não teria coragem. O grande segredo de todo sexo funcionar, para mim, não é se alguém fode bem na cama. E sim, se aqueles corpos são compatíveis e eles transam bem. Não importa o quanto você seja um atleta sexual, tem gente que as vezes não funciona. E isso é pura falta de compatibilidade.

E isso se aplica na nossa relação também. Se nosso sexo fosse ruim e não tivesse química, não ia ter amor que segurasse, nem vontade de estar junto. Convenhamos, alguém que não seja feito para você na cama é um saco. Pensando nisso e sabendo que somos bons no que fazemos um com o outro, eu me soltei. Mas, mais do que isso, eu fiz o que eu quero fazer, sem remorso do que ela vai pensar. Porque ela jogou o jogo da verdade e se abriu quando a gente se apaixonou com as seguintes palavras mágicas que todo homem deveria ouvir de sua mulher: Você Pode Fazer O Que Quiser Comigo.

Som de anjos tocando trompetes ao fundo. Beethoven tocando a nona sinfonia. Felicidade eterna no lar. Amém.

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Reprodução/Facebook

 

4 — Eu sou um homem melhor

Se ela te escolheu é porque ela realmente gosta de você. Ninguém me disse isso. Foi uma conclusão que eu tirei baseada no fato da segurança e autoestima que ela tem que vai contra todos os estereótipos. Estereótipos esses que só demonstram o quão machista e preconceituoso é o mundo. Ela não é carente e nunca foi. Nunca precisou de um homem para pagar as contas dela, nem de alguém que fosse um porto seguro. Nunca tentou se matar e nunca fez nada do que fez por ser uma coitadinha e por se achar inferior a ninguém. Ela nunca foi obrigada a nada. Nunca passou fome, nem teve a necessidade de sobreviver assim. Teve uma excelente educação e tem bons pais como exemplo.

Ela fez uma escolha. E ela caga para o machismo diário e luta contra qualquer impunidade que possa vir a acontecer a ela e suas semelhantes. Ela não entra na conversa do mundo masculino de que foi usada como um objeto. É muito mais fácil ser o inverso, ela ter usado quem achava que estava usando. E isso não é conceitual, nem filosófico. É a vida real.

A verdade é que tenho orgulho da minha mulher. E acredito que tudo que aprendi, não seria possível, se não tivesse aberto a minha cabeça e meu coração e parasse de ver o mundo com os olhos do macho soberano inteiramente no comando e passasse a aceitar uma mulher poderosa. E isso assusta né? A mulher independente. Sim, assusta. Porque, como homem, não estamos preparados. Mas, assim que nos acostumamos tudo fica melhor. Vá por mim. Vale muito a pena sair do comodismo.

Thiago Manzo é escritor e roteirista, parceiro da dançarina e atriz Mayanna Rodrigues. Este texto dele foi originalmente publicado em sua coluna no site Xplastic e gentilmente emprestado para o Testosterona.