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Tarde Acústica, Esquenta Sertanejo, Grandes Covers e todas as outras playlists do Spotify que nós amamos não aparecem lá “do nada”. O trabalho é 100% humano e o responsável por todas elas é Bruno Telloli, que assina todas as playlists do Spotify Brasil e Portugal.

Mas se você acha que é fácil dar trilha sonora à vida das pessoas, volte duas casas. Bruno tem uma das funções mais complexas e prazerosas dentro da maior plataforma de música comercial em streaming do mundo e, para isso, conta com sua vasta experiência – e também muita paciência, é verdade.

playlists-spotifyGeek assumido, Bruno é apaixonado por tudo que envolve o universo pop, seja nos quadrinhos, filmes, bonecos colecionáveis ou pelas redes sociais, seu cotidiano é naturalmente regado de muita referência interessante. Ele é publicitário formado pela Anhembi Morumbi e já caminhou por grandes empresas durante sua trajetória, sempre trabalhando com conteúdo musical e tendências. Para você ter uma ideia, antes de chegar ao Spotify ele passou por lugares como Vevo, MySpace e Apple.

Em entrevista exclusiva ao Testosterona, Bruno revelou o passo a passo da criação de uma playlist, contou os bastidores dos cases de sucesso e as reações das pessoas quando descobrem que é ele quem monta as trilhas sonoras do nosso dia a dia (e confessou que recebe até pedido de casamento!).

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Como é o processo e o critério de seleção das músicas para você criar as playlists?

O primeiro passo quando a gente vai criar uma playlist é saber qual o propósito dela. Para que vai servir, qual o estilo musical vai dentro dela e, depois, fazer a curadoria para ela. Dependendo do tema, dá para arriscar mais com artistas novos, ou quando ela está bem consolidada dentro da plataforma, a gente faz diversos testes com músicas dentro da playlist. Mas o ideal é que, quando o usuário entre numa playlist, ela tenha pelo menos nomes de artistas ou faixas que ele reconheça na hora, para prendê-lo dentro dela, depois a gente vê a performance de cada uma – e isso varia muito de uma para outra. Então, tem playlist que só tem artista novo, tem outras que só têm artista muito grande, mas a gente sempre tenta fazer o balanceamento justamente para o que o usuário descubra novos artistas sempre.

E você diz “a gente”, você tem uma equipe para ajudar você com isso?

Não, aqui no Brasil sou só eu fazendo essa parte de curadoria, mas no resto do mundo tem mais umas cinquenta pessoas vinculadas ao trabalho. Ficamos de olho, através deles, nas músicas que estão bombando ao redor do mundo. Tem a área que cuida do relacionamento com artistas e gravadoras, que não sou eu, e também a parte de social, que fica de olho no que os usuários estão falando nas redes sociais, tanto sobre algum artista específico ou playlist.

E como foi que você chegou no Spotify?

Bom, eu sou formado em publicidade, mas sempre trabalhei com música e conteúdo musical. Já trabalhei em diversas empresas como MySpace, Vevo, Apple, e aí o pessoal do Spotify me achou e eu vim para cá. Então não teve uma fórmula para isso, foi a experiência ao longo dos anos mesmo.Quais das playlists você mais gostou de fazer?

Vish. É difícil escolher. Talvez, uma que gente fez pontualmente, por uma ação com usuários, acho que a do Dia Dos Namorados do ano passado, que chamava “O Pedido”, e ficou muito bacana. Quando o usuário lia o nome das faixas dentro da playlist, formava um pedido de namoro. A do “De Volta Para o Futuro” também, que foi uma ação que começou no Brasil e depois se tornou uma ação mundial do Spotify. A gente criou uma playlist com os sucessos que Marty McFly ouviria quando chegasse de viagem dia 21 de outubro de 2015. Também tem a do caso do Whatsapp, que tomou uma proporção que nem a gente imaginava que tomaria. Quando o WhatsApp ficou fora do ar por 48 horas a gente criou uma playlist de 48 horas de música e todas as faixas dentro dela eram sobre mensagem, SMS, solidão. A imprensa toda comentou, até a equipe do Facebook no Brasil comentou e elogiou a criatividade. E talvez a outra seja uma que a gente criou chamada Super Nerd, que a gente nunca imaginou que daria com uma playlist de tema tão específico, games, filmes e séries, mas foi sucesso instantâneo. Nas primeiras 24 horas muita gente falava sobre ela nas redes sociais e de uma forma positiva, principalmente porque tem muita playlist de rock, pop e não tinha uma dessa. Então, até hoje muita gente consome, e quando a gente adiciona alguma faixa, as pessoas voltam a ouvir, comentar e compartilhar. Esses são os casos que extrapolaram as nossas expectativas mesmo.

E como você faz essa seleção, por exemplo, as músicas que entraram na playlist do Whatsapp, que tinham um tema específico, algo que precisa conhecer a letra e tal, você tem um banco de dados para ajudar com isso?

Não. Na verdade, toda a seleção é 100% humana. É por conhecimento mesmo, quais faixas tratam do tema e quais poderiam entrar ali. No caso da playlist do Dia dos Namorados, o desafio foi popular com faixas que tinham, no título, palavras que dariam para formar uma frase. O negócio foi procurar mesmo. Foi trabalhoso, mas acho que é isso que diferencia o Spotify dos outros serviços. É buscar olhar onde o usuário está e entrar no mundo dele dessa forma bacana, criando uma trilha sonora para aquele momento.

Nossa, então dá muito mais trabalho do que eu pensei que daria. Então, quanto tempo leva para você fazer uma playlist básica, de pouco mais de duas horas?

Ah, depende. Uma playlist de algum gênero musical, rock, pop, é mais fácil. Porque você mais ou menos já sabe quem são os artistas, e aí o banco de dados ajuda muito porque dá para filtrar pelo gênero. Mas quando é uma playlist mais específica de algum tema, aí vai muito da pesquisa, mas tem vezes que demora trinta minutos, vezes que demora 1 hora e vezes que demora semanas trabalhando na mesma playlist.

E como é feito o planejamento? Você tem as ideias e já faz ou precisa passar por alguma aprovação antes?

Não, e isso é uma coisa bacana do Spotify, é a liberdade de criar novas coisas, principalmente na minha área de playlist, que é mais próxima do usuário e a gente tem uma resposta automática. Em poucos minutos a gente já consegue medir o impacto de uma playlist no usuário. Se eu preciso discutir a criação de alguma playlist aqui dentro da empresa, a gente sempre discute qual a finalidade dela, em que ela vai ser útil, se vai poder ser usada em diferentes horários do dia, ou se a gente já tem alguma parecida que podemos adaptar. Então vai muito disso, porque “criar por criar” não faz muito sentido, então a gente sempre tenta achar uma finalidade para ela, porque o Spotify tem milhões de playlists.

Esse retorno você mesmo acompanha diretamente ou alguém passa essas informações para você?

Sou eu mesmo! Todo dia, com a ajuda de várias ferramentas, eu consigo medir o impacto de uma playlist. É claro que, em tempo real, é mais pelas redes sociais, dá para ver o que as pessoas estão falando sobre determinada playlist. Mas depois de 24 horas já dá para ver com números isso. Mas não é difícil, a gente vê logo pelo número de seguidores, se ela começa a ter muito seguidor, a gente já sabe que ela vai para frente, que falou muito bem com o usuário, então isso também é um indicador.

E vocês costumam ficar de olho nas playlists dos usuários, se estão com muitos seguidores, se podem aproveitar…?

Eu sempre tento buscar quantas playlists foram criadas com determinada palavra. E aí a gente fica sabendo mais ou menos qual o conteúdo está merecendo uma atenção. Então, por exemplo, se dez usuários criaram uma playlist de churrasco, desses dez, o conteúdo é parecido ou completamente diferente? A gente analisa. É muito bacana porque tem muito usuário que não tem muito seguidor, mas é ativo nas redes sociais, tem uma história bacana na internet, então a gente também tenta ajudar.

As pessoas pedem muita playlist para você?

É bacana que, em algum momento do ano passado, muita gente descobriu quais eram as minhas redes sociais pessoais e começaram a solicitar playlists, elogiar, e é legal. Tem bastante banda ou artistas que vêm falar comigo para entrar e eu até ouço, mas aviso que não sou responsável por essa parte, até para não acabar favorecendo alguém. Mas com o público é engraçado, quando aparece alguém falando que quer casar com a pessoa que criou tal playlist, quer dar um abraço, é bem engraçado esse comportamento do usuário com as playlists do Spotify. Assim a gente percebe o quanto entra na vida deles.

E vocês tem uma playlist favorita aí no escritório?

Ah, aqui a gente usa muito fone de ouvido, mas temos uma playlist nossa, do escritório do Spotify, feita com o que as pessoas daqui estão ouvindo. Então, toda segunda-feira elas mandam o que andam ouvindo no escritório ou em casa e a gente vai colocando essas faixas nas playlists, para manter sempre variado. E dali sai muito artista novo e eles ficam muito felizes, mandam mensagens agradecendo, mas na verdade a gente coloca porque tem alguém daqui ouvindo mesmo, não é só colocar por colocar, tudo tem um porquê. E o usuário começa a puxar por ali esses sons novos e explorar ele dentro da plataforma.

E o que você, Bruno, gosta de colocar na sua playlist?

Ah, isso é segredo! (Risos)

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