– Nossa, Zé Augusto, você viu o que a Roberta falou?
– O que foi, Paula?
– Você lembra o que ela disse na hora em que eu perguntei o que ela achou da minha roupa?
– Não, Paula, não me lembro.
– Ai, você também nunca presta atenção nas coisas!
– E por que eu deveria prestar atenção nisso, Paula?
– Porque você é meu marido, oras!
– Tá bom, me diz então o resultado de XV de Jaú x MotoClube de ontem.
– Você sabe que eu detesto futebol, Zé Augusto!
– Você também nunca presta atenção nas coisas, Paula!
– Tá bom, engraçadinho, já entendi. Mas sabe o que ela disse?
– Não, Paula, eu não sei.
– Ela disse que a roupa poderia ter ficado melhor!
– Bobagem, Paula, isso é inveja dela.
– Não é inveja, Zé Augusto! Ela me chamou de gorda, eu tenho certeza!
– Que nada, amor. Duvido que tenha sido isso.
– Ah é? Então o que você acha que foi?
– Não sei, Paula, Por que você não pergunta a ela?
– Porque ela vai mentir, eu tenho certeza. Ela é mentirosa! Eu sei que ela é e já disse isso, você sabe que eu sou sincera.
– Então se ela é mentirosa a roupa não poderia ter ficado melhor.
– Ai, Zé Augusto, para de me sacanear!
– Eu não tô te sacaneando, ô criatura!
– Ai meu Deus, eu devo estar gorda mesmo, só pode! Odeio quando as pessoas não são sinceras, ficam te enrolando e não dizem logo a verdade na sua cara.

E aí chega aquele momento de terror para todo homem. É a única hora em que nenhum homem sabe como reagir, o que fazer, ou como responder:

– Amor…
– Oi, Paula, diga.
– Eu tô gorda?

A chave aqui é o tempo de resposta e a firmeza na sua voz. Poucos segundos pensando e tudo irá por água abaixo. O silêncio é o seu inimigo. Tal qual um pistoleiro no velho oeste, seja rápido no gatilho, minta se for preciso e mude de assunto rapidamente, sempre encerrando a conversa com um elogio:

– Claro que não, Paula! Você está ótima! Você é linda. Cê viu o lance lá do Steve Jobs?
– Você tem certeza que eu não tô gorda, Zé Augusto?
– Tenho, Paula, claro que tenho.
– E se eu ficar gorda, você vai deixar de me amar?
– Claro que não, Paula, você é o amor da minha vida. Minha vida orbita em torno de você.
– Como assim orbita em torno de mim, Zé Augusto? Você tá dizendo que eu sou gorda, do tamanho de um planeta?
– Claro que não, Paula! Você tá viajando, tá vendo muito Discovery Channel! Você é meu docinho de coco;
– Tá vendo? Eu sabia! Doce de coco! Engorda! Eu sou uma gorda! Você me acha gorda!
– Para com isso, Paula! Não foi o que eu quis dizer! Eu quis dizer que sem você eu fico perdido, viajando na maionese!
– Maionese? Maionese tem gordura trans, Zé Augusto!
– Ai meu Deus, que saco.
– Tá vendo? Eu sou uma gorda e você vai me deixar!
– Tá bom, Paula, vou te dizer o que eu acho. Eu acho que você tá gorda sim, eu acho que aquela roupa ficou apertada demais e que você não tem mais idade pra se vestir daquele jeito. Tá bom assim?
– Ai, Zé Augusto, você e essa sua mania chata de sinceridade.

Siga no twitter