Quase que eu vou à falência em um dos primeiros jantares que tive com a minha mulher. No começo de namoro, é quase impulsiva a vontade de impressionar sua namorada. Era dia dos namorados, e eu não podia fazer feio. Escolhi um dos restaurantes mais badalados da cidade, separei um dinheirinho economizado e fomos.

A minha tática era, sutilmente, fazer as contas durante o jantar, para saber quanto viria a conta. Se eu tomasse um susto, minha namorada poderia perceber. Não podia fazer feio, nem deixar com que a conta viesse mais alta que o tanto de dinheiro que eu tinha.

Os garçons começaram a passar com bandejas portando diversos tipos de entradas: frios, coxinha, unha de caranguejo e outras coisas gostosas. Quanto deveria custar aquilo? Não tinha o preço no cardápio e eu não queria perguntar. Joguei pro alto. Uns 10 reais cada?

Depois de comer algumas – calculadas – entradas, fomos ao prato principal. Ela dava uma sugestão e logo eu informava que era alérgico ao preç…digo…camarão. Escolhemos um prato e solicitamos ao garçom. “Os pratos são individuais”, nos informou. “Fica feio eu dizer que não tô com fome?”, pensei. Fingi escolher outro prato, enquanto tentava calcular mentalmente em quanto estava a conta. Sou de humanas, imaginem meu sofrimento.

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Busquei me acalmar, era uma data especial e eu não poderia estragar a noite por mesquinharia. Pelos meus cálculos, o valor ainda estava abaixo do dinheiro que havia separado. Não precisava me preocupar. Jantamos calma e romanticamente.

Pedi a conta com a convicção de alguém que já estava com tudo calculado na cabeça, pronto para só confirmar o valor e entregar o dinheiro sem pestanejar.

A conta chegou e eu descobri o quão falho eu sou em matemática, e como eu sou ingênuo na hora de supôr o valor das coisas. As entradas, que eu imaginava 10 conto cada, beiravam o salário mínimo. O jantar, que era individual, custava o mesmo que o supermercado de casa, que alimenta seis pessoas. De bebida, parecia que eu havia bebido a cantareira inteira.

Fingi um mal-estar repentino e fui ao banheiro. Chorei um pouco, mas logo me pus a contar o dinheiro. Detalhe: não ia dar! Voltei pálido para mesa e minha namorada notou. “Está bem, amor? Olha, você quer dividir a conta?”. “Tô bem sim. Não…não vamos dividir. Não se preocupe.”

“Eu que vou ter que dividir uma parte no dinheiro, outra no cartão e mais uma no vale transporte”, pensei. Por sorte, meu cartão de crédito ainda passava – saudade dessa época – e eu, realmente, precisei pagar metade no dinheiro e a outra no cartão. Falei pra ela que era mania minha, coisa de gente excêntrica, sabe?

Arrisquei minha dignidade, apostando que ainda sobrasse um saldo no cartão para que a maquininha mostrasse a tão esperada mensagem: “Transação aceita”. Não calculei um plano de fuga, caso não fosse autorizado. Um ataque cardíaco? “Sua senha, senhor”. Suei frio. Foram os cinco segundos mais longos de minha vida. Eu tava suando? Não podia fazer feio. Passou. “Retire seu cartão”. Recuperei a dignidade. Entreguei o dinheiro sem pestanejar. Puta que pariu! Estava sem dinheiro e com o carro na reserva. Não podia fazer feio, comecei a rezar para, pelo menos, chegar na casa dela.

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