Eu nunca ganhei um ímpar ou par da minha namorada. É muito estranho como a coisa toda acontece, nunca imaginei que alguém pudesse virar o jogo em disputas como essa. Ela consegue. Toda vez que vamos alugar filmes, cada um escolhe um e o terceiro filme nós escolhemos juntos. Ou seja, ela escolhe dois e eu um. Depois, vamos decidir quem verá o filme primeiro. Eu peço ímpar e ela par. Eu jogo três e ela dois, deu cinco. Ela ganhou.

Não foi só ela que ganhou. Elas nos ganharam. E isso o fazem desde o primeiro contato do homem e da mulher. Nada me tira da cabeça que Adão ganhou no ímpar ou par contra Eva, preferindo comer laranja que maçã, mas, sabemos o que aconteceu. Romeu disse a Julieta que era preferível que eles fugissem na surdina, ao invés de inventar essas histórias de morte. Julieta estava tendo aulas de teatro e não poderia desperdiçar aquela chance para saber se estava se saindo bem. Deu no que deu.

Voltando ao meu caso, que não é nenhuma tragédia – Graças a Deus! – mas iria me fazer esperar duas horas de primeiro olhar, brilhos nos olhos, sorrisinho, beijo escondido, beijo mais forte, alguma-cagada-que-separa, arrependimento, volta louca no aeroporto/ponto de ônibus/porta de igreja, para então chegar minha vez de assistir ao filme. Sempre fico nervoso antes de um ímpar ou par, penso em todas as probabilidades, qual melhor número para jogar e sempre, sempre, jogo três. Mas, eu acho que a minha namorada ainda não percebeu, porque ela sempre joga dois, mesmo eu pedindo ímpar. Ou eu ainda não havia percebido que a disputa era uma mera formalidade para depois sabermos quem realmente ganhou.

Ela é imune a isso. Não adianta. Eu brado: “ganhei! Vamos ver meu filme!” e ela me olha com um olhar indecifrável e faz aquela pergunta: “tem certeza?”. Eu, macho alpha que sou, engrosso minha voz, franzo o cenho e ratifico: “sim, vamos ver o filme que eu aluguei”. Ela pisca o olho direito, ri de soslaio, vira o rosto pra mim e fala: “tá bom, então”. Já sei o que significa. Eu perdi. Azar no jogo, sorte no amor.

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