– Eu compro!

– Como assim “eu compro”?!

– Ué…eu quero comprar.

– Mas, amor, e eu?

– Que que tem você, Rosilene?

– Ah! Bem que me avisaram! “Que que tem você, Rosilene?” Como o que tem eu? Porra, Otávio! Eu sabia que um dia irias passar por cima dos meus planos, por cima de tudo que eu havia milimetricamente planejado para dar vez às tuas vontades. Se já é assim no namoro, imagina casado! Começa com “o que você quer comer hoje, meu bem?” e um dia chega no “faz sopa de cabeça de peixe e requenta algo pra você”. Otávio, a minha mãezinha não me criou pra servir de palhaça! Fui criada para perseguir o que quero, e é isto que eu vou fazer!

– Rosi, calma. Eu não quero mais comprar, tá tudo bem.

– Tá vendo, Otávio? Eu preciso fazer um escândalo pra ser atendida. Um escândalo! Você não tá nem aí se eu quero pôr uma casa aí, eu já tenho Jardins. E depois? Vais deixar o Dionísio e a Natalí comigo pra ir pro futebol? É isso? Sempre pensando nos teus programas, tuas vontades e desejos?

– Quem é Dionísio e Natalí?

– Nossos filhos, Otávio! Ou também não queres os nomes que eu escolhi? Vais querer outros? Talvez Paulo e Patrícia? Do jeito que queres, como a tua vida mimada te ensinou. Tudo do jeitinho que o Otavinho quer! Era assim? “Ah, o Otavinho quer vatapá. Façam!”. Comigo não, Otavinho! Comigo não! Vamos ter que sentar e conversar para sempre chegar em um ponto comum.

– Mas, amor, eu não estou entendendo nada. Isso aqui é só um jogo, eu desisto de comprar Higienópolis. Ou eu compro e te dou.

– Só um jogo, Otávio. Tá bom. E nós? Somos “só um namoro?”- Rosi fez as aspas com os dedos, era um caguete, ela sempre fazia as aspas com os dedos mesmo quando elas não eram necessárias- Depois será só um casamento. Só um chifre. Só, só, somente só! Não desdenha das coisas, Otávio! Não menospreza e nem pisa nos sentimentos dos outros. Eu não quero mais jogar!

– Rosi, isso aqui é só Banco Imobiliário.

– Todo mundo sabe que o Banco Imobiliário é uma metáfora da vida. Não posso namorar uma pessoa assim. Adeus, Otávio!