Como ser feio, digo, como ser mal-diagramado pela própria natureza, e vencer na vida. Vencer não é bem o termo, um empate com gosto de vitória, aos 48 do segundo tempo, está valendo. A única vitória da existência é a da Velha da Foice, impiedosa e fatal, bem sabemos.

Ai de mim, Copacabana. O certo é que estou ouvindo aqui o “Cidadão Instigado”, uma das melhores bandas, há séculos seculorum, do país. Donde me deparo de novo com um verso magnífico do Catatau, o gênio cearense à frente do referido conjunto: “Um defeito de Deus é sempre perfeito”.

Isso explica porque lembrei dessa arte de ser feio etc. Daí aproveito para responder a muitas consultas de leitores que se sentem passados para o fim da fila por causa da suposta fealdade ou ausência de beleza.

Rapazes de todos os recantos do Brasil, como Plácido, 28, de Pato Branco (PR), que culpa, impiedosamente, a sua feiura, por toda uma antologia de infortúnios e insucessos  com as mulheres.

À guisa de encorajamento, reescrevo, mando um remix de uma velha tábua filosófica deste blog e faço saber:

1) Que a beleza  passageira e a feiura é para sempre, como repetia o mal-diagramado Sérge Gainsbourg –o francês que só pegava mulher fraca, como a Brigitte Bardot e a Jane Birkin, entre outros colossos. Sim, aquele mesmo francês cabra-safado autor do maior hino de motel de todos os tempos, “Je t´aime moi non plus”, claro.

2) Que as mulheres, ao contrário da maioria dos homens, são demasiadamente generosas. E não me venha com aquela conversinha miolo-de-pote de que as crias das nossas costelas são interesseiras. Corta essa, meu rapaz. Se assim procedessem, os feios, sujos e lascados de pontes e viadutos não teriam as suas bondosas fêmeas nas ruas. Elas estão lá, bravas criaturas, perdendo em fidelidade apenas para os destemidos vira-latas.

3) Que o feio, o mal-assombro propriamente dito, saiba também e repita, no troco da generosidade,  um velho mantra deste cronista de costumes: homem que é homem não sabe sequer a diferença entre estria e celulite.

4) Que mulher linda até gay deseja e encara, quero ver é pegar indiscriminadamente toda e qualquer assombração e visagem que aparecer pela frente.

5) Que homem que é homem não trabalha com senso estético. Ponto. Que não sabe e nunca procurou saber sequer que existe tal aparato “avaliatório’’do glorioso sexo oposto.

6) Que as ditas “feias” decoram o Kama Sutra logo no jardim da infância.

7)  Que para cada mulher mal-diagramada que pegamos, Deus nos manda duas divas logo depois do enlace.

8)  Que mulher é metonímia, parte pelo todo, até na mais assombrosa das criaturas existe uma covinha, uma saboneteira, uma omoplata, um cotovelo, um detalhe que encanta deveras.

9) Que me desculpem as muito lindas, mas um quê de feiura é fundamental, empresta à fêmea uma humildade franciscana quase sempre traduzida em benfeitorias de primeira qualidade na alcova, como o melhor sexo oral do planeta, para não esticarmos demais a prosa.

10) Saiba, por derradeiro, irmão de feiura, que a vida é boxe: um bonitão tenta ganhar uma mulher sempre por nocaute, a nossa luta é sempre por pontos, minando lentamente a resistência das donzelas.

Porque, meu bem, como diz o meu amigo Conde do Brega, ninguém é perfeito e a vida é assim.

*Crônica de Xico Sá na Folha de São Paulo