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A mulherada ficou enlouquecida com o livro e, quando o assunto parecia ter se acalmado, veio a notícia do filme. Se você ainda está meio perdido e não sabe o que pensar sobre a história toda, separamos umas verdades que você precisa saber – mas não vai ouvir delas.

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O best-seller chegou ao Brasil em 2012 desbancando tudo das listas de mais vendidos das livrarias. Nos Estados Unidos, vendeu mais de 10 milhões de cópias em seis semanas, o que coloca a série entre os maiores best-sellers de todos os tempos, deixando para trás os grandes O Código Da Vinci e a saga Crepúsculo (aliás, este último serviu de inspiração para a criação de 50 Tons). A autora, E L James, é uma londrina ex-executiva de TV, que já era considerada pela Revista Time uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Agora ela domina 25% do mercado literário norte-americano e vendeu os direitos para o cinema por 5 milhões de dólares.

A trama e os personagens favorecem o imaginário feminino ao descrever (em detalhes e em primeira pessoa) as aventuras eróticas sadomasoquistas de uma jovem estudante de 21 anos (Anastasia Steele), virgem e inexperiente, com um bilionário sedutor mais velho (Christian Grey). Os dois se encontram por acaso e acontece uma atração avassaladora. Tudo parece um conto de fadas até que Ana descobre que Grey tem um “quarto da dor”, com aparatos para sessões de sexo masoquista. Em vez de casamento, como seria nos contos de fadas, Grey propõe um contrato para que Ana se torne sua escrava sexual e principal objeto de prazer. E o livro segue.

O filme estreia dia 12 de fevereiro com classificação indicativa 18 anos. Se a sua namorada é fã da trilogia, você corre o risco de ser intimado a levá-la ao cinema. Então, é bom estar preparado.

1 – O livro não é tão bom assim

E não estamos falando da história. Com diálogos pobres e descrições cafonas, passa longe de ser o ápice da literatura mundial e deixa a desejar perto de bons romances eróticos. Quase não há trabalho de linguagem e nem chega a criar um estilo. O erotismo peca por se sustentar apenas na descrição do sexo, quando poderia criar um clima o livro inteiro. Além disso, a tradução não ajuda e acaba deixando a leitura mais repetitiva (o romance já foi qualificado como “pornô para mamães” e “Cinderela tarada”).

2 – Vale reforçar: é uma ficção

Não é com vampiros, como em Crepúsculo, mas também é uma ficção. A diferença é que os vampiros deixam mais clara essa linha entre a realidade e a fantasia (e, mesmo assim, conseguimos ver a loucura que foi vampiros e lobos com as adolescentes). Em 50 Tons, apesar de algumas situações serem claramente absurdas para serem reais, parece que o fato de serem “pessoas normais” deixa essa linha da realidade um pouco mais tênue.

3 – Pode não ser um relacionamento muito saudável

Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade do Estado de Michigan analisou o relacionamento do casal do livro e comparou com os padrões que o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) do governo americano considera como violência interpessoal. Segundo eles, o namoro é “emocionalmente abusivo, caracterizado por perseguição, intimidação e isolamento”. Como consequência, também segundo o estudo, Anastasia sofre de estresse, distúrbio de identidade e sensação de impotência.

O Dr. Arthur Figer, psicólogo clínico e psicanalista, em entrevista ao Testosterona, fez ressalvas sobre os resultados dessa pesquisa: “Classificar um relacionamento como saudável ou não significa recorrer aos padrões internacionalmente estabelecidos dos guias de classificação de doenças – e o número de comportamentos tidos como “doentios” ou “anormais” não para de crescer a cada edição destes guias. Em seus “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905), Freud adjetiva a sexualidade humana de “perversa polimorfa”, deixando claro que não há regras nem objetos de satisfação pré-determinados quando o assunto é a satisfação sexual de homens e mulheres”. Ou seja, cada caso é um caso mesmo.

4 – Pesquisas já tentam convencer de que ele faz mal à saúde das leitoras

Os mesmos pesquisadores foram mais longe: quiseram saber se o romance influencia as leitoras. Entrevistaram 655 mulheres, entre 18 e 24 anos, sobre seus hábitos alimentares, vida sexual e consumo de álcool. Entre elas, 33% haviam lido pelo menos um livro da trilogia e relataram mais envolvimento com namorados violentos, distúrbios alimentares e se embriagavam com mais frequência. O Dr. Maurício Amaral de Almeida, psicólogo cognitivo, escreveu artigos sobre a cultura sadomasoquista (A Cinderela Fetichista I: Verdades e Mitos em Cinquenta Tons de Cinza) e não atribui esses distúrbios à leitura. Em entrevista ao Testosterona, disse que não podemos generalizar:

5 – O fanatismo pode ser culpa da “falta de macho”

O Dr. Maurício explica: “Ao longo dos últimos 40 anos, tivemos uma mudança cultural no sentido de tirar do homem o papel dominante, algo como uma desmasculinização dos homens e isso pode ter gerado nas mulheres a carência de algum tipo de masculinidade. O homem da década de 50, por exemplo, era mais cuidadoso, responsável do que o homem dos anos 2000. No consultório é frequente esse tipo de queixa, de que os homens não têm tido postura e atitude. Não estamos falando de machismo, de homens que não respeitam e não valorizam. Mas percebemos que é grande a ansiedade das mulheres por homens que tenham atitude, postura e demonstrem uma masculinidade que está desaparecendo. E muito dessa ansiedade se manifestou nas leitoras dos 50 Tons ”.

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6 – Ele reforça a ideia de que mulheres são interesseiras

E isso deixou as feministas malucas, vocês podem imaginar. O que dá a entender é que a Anastasia “aceitou” tudo porque Grey era poderosíssimo, bonito, dava presentes incríveis e satisfazia todos os seus desejos. A filósofa com ênfase em questões feministas, Márcia Tiburi, escreveu sobre o livro em seu blog na Revista Cult: “Este livro é conservador. (…) É verdade também que este livro humilha a imagem das mulheres. Ele também humilha a imagem dos homens e contra esse tipo de conteúdo sempre podemos nos insurgir”. Vamos lembrar aqui que é uma ficção e que tudo isso pode fazer parte da “magia e fantasia” da história. É o que defende o Dr. Maurício Amaral: “Essa é uma visão enviezada da história. Nos romances eróticos femininos sempre há essa figura do homem poderoso e esse poder tem que se manifestar de alguma forma, e nesse caso é financeiro porque é a construção do personagem. Anastasia também foi construída dessa forma para acontecer a identificação. Tudo vai da construção dos personagens”.

7 – O livro foi “empurrado” às mulheres

E isso entra em questões sobre Indústria Cultural, desejo de audiência e o fato de muitos títulos serem “empurrados” às listas de mais vendidos. Eu não desaprovo a leitura (é claro que ele foi bom para muita gente), mas acho uma pena que tenha sido ele tão empurrado à “massa” por um marketing muito bem feito, sendo que temos uma variedade de livros tão bons no mercado. Mas é melhor ler um livro ruim do que não ler nenhum, penso eu. A justificativa que Dr. Maurício dá para essa “febre” é a “coincidência do momento”: “Sob a minha interpretação, foi uma coicidência muito feliz da autora. Ela conseguiu falar de um assunto que estava começando a entrar na cabeça das pessoas, ela escreveu a coisa certa no momento certo e fez do livro um best-seller. A literatura erótica sempre teve um mercado muito ativo, ele só não era muito comentado”.

8 – As mulheres podem querer um Grey em casa

“É possível que desperte em algumas leitoras o interesse de experimentar uma ou outra cena do livro, assim como outras podem obter satisfação no âmbito da fantasia apenas”, explica Dr. Arthur. “Há também um ingrediente dito estrutural nessa atração das mulheres pelo livro que seria justamente o que Freud nomeou de ‘masoquismo feminino’, cuja ideia central gira em torno daquilo que ele apontou como sendo uma espécie de relação íntima entre sexualidade e uma dose de dor no desenvolvimento das mulheres”, completa.

9 – A verdade que mais dói: você nunca será o Christian Grey

Ele é um jovem bem sucedido, bilionário, intimidador, um líder nato, é fiel, pilota o próprio avião, sabe consertar ar condicionado, é o cavalheirismo em pessoa e ainda é bom de cama (Anastasia tem 20 orgasmos em pouco mais de 400 páginas). Mas você pode tentar, por que não?