Resolvi fazer este texto porque muitos dos meus amigos me perguntam: “Como você aguenta?”. E eu demoro a responder. Não porque seja difícil, mas porque eu fico tentando entender a pergunta, na verdade. O que eu não aguentaria? Daí resolvi organizar algumas respostas.

Li um texto nessa linha esses dias e achei muito legal como o ponto de vista foi colocado, então, usei de inspiração para criar a minha versão também. A designer Vanessa Kinoshita escreveu contando sobre os primeiros meses de trabalho dentro da redação da revista Playboy. O curioso é que, sempre que pensamos em revistas masculinas, logo vem à cabeça um monte de marmanjo que ama o emprego que tem e o trabalho que faz. Mas a verdade é que muitas mulheres também estão por trás disso tudo (com o perdão do trocadilho).

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Quando eu cheguei no Testosterona, em 2014, de fato, eram só homens. Mas acho legal contar como cheguei. Eu acho legal mesmo, oras. Bom, eu era leitora do Blog. Não fiel, nem desde o começo, mas era. A linha editorial era mais focada em imagens e vídeos e, em sua maioria, da Megan Fox. Quando começaram os posts com textos, notícias, polêmicas, etc, foi ficando interessante para mim.

Em 2010 eu comecei o curso de Jornalismo na Cásper Líbero e a minha ideia era trabalhar em revistas masculinas. Eu mandava sugestão de pauta para o editor do Testosterona, o Eduardo Mendes, ficamos amigos, até que um dia fui ao lançamento de um livro do Marcelo Rubens Paiva, montei um texto/resenha e mandei. A resposta do Edu foi: “Se vira para escrever um por semana. A coluna é sua”. A coluna, no caso, não tinha nem nome, nem tema, nem nada. E cá estamos, um ano depois (a coluna ainda não tem nem muito nome, nem muito tema, mas ok).

Hoje são 7 homens (contando os colunistas e o Edu) e mantemos um grupo no WhatsApp para conversarmos e para trocar ideias e pautas. Diferentemente do ambiente de redação da Playboy, por exemplo, fico sozinha em casa, me sentindo um adolescente de tanta aba NSFW aberta no navegador. Minha mãe, que já está devidamente avisada do que faço, às vezes confessa certa preocupação. “Toda vez que passo por aqui você tá vendo mulher nesse computador, credo”, ela diz. Daqui, vamos ao primeiro ponto:

1 – Uma bunda é só uma bunda

No começo, vou confessar que enchia o saco mesmo. E eu perdia mais tempo me comparando com as imagens com as quais eu tinha que lidar do que fazendo o que tinha que fazer. Depois teve a fase de colocar defeito em todas as mulheres e soltar aqueles “prefiro o meu ‘isso’”, “prefiro o meu ‘aquilo’”. Agora, uma bunda é só uma bunda. Um mamilo é só um mamilo. E fim.

2 – Não mudei minha opção sexual, mas

Mas trato as coisas com muito mais naturalidade e em alguns momentos eu até chego perto de questionar minha heterossexualidade — mas passa rápido.

3 – Às vezes sinto que sou tratada como homem

Não é de todo ruim, se pensarmos bem. Não tem firulas — mesmo. Nenhuma. É tudo na lata. Mas sou muito sensível e acho que me chateio muito facilmente com coisas bobas. Então, serviu um pouco para eu deixar de tanto mimimi. Mas a TPM se torna um grande problema, também pelos assuntos que os meninos falam no nosso grupo, às vezes é too much information em dias que talvez eu não esteja para isso. É como se esquecessem que eu ainda sou uma mulher ali.

4 – Os homens acham que entendo tudo de putaria

É verdade, juro. Ou têm medo de virar pauta. Não vou entrar tanto na questão, mas de onde tiram isso?!

5 – Descobri que os homens podem ser mais babacas do que parecem

São tempos difíceis para se trabalhar em um blog de humor de cunho machista. Ainda mais sendo mulher e tentando colocar algum conteúdo diferente do que estão acostumados. A lista-reportagem sobre o Clube das Mulheres talvez tenha sido o melhor exemplo disso. Sempre leio os comentários das postagens no Facebook mas, com essa, foi difícil. Atacaram o assunto sem dó, com ofensas baixíssimas e nenhum respeito — e ouso dizer que metade deles sequer leu o texto. Tudo porque eles não concordam de jeito nenhum que suas namoradas ou esposas frequentem “esse tipo de lugar” (e vou poupar vocês das justificativas absurdas e arcaicas deles).

6 – Tem dia que cansa tentar pensar como homem

Minha ideia é sempre pegar um tema que eu imagino que seja interessante para eles e trabalhar aquilo de um jeito que eles queiram ler e se divirtam, sem ser uma experiência chata, cansativa, etc. Tem dia que é absurdamente simples. Tem dia que não. Não aguento mais ver bunda, nem ruivas, nem tatuadas. Recentemente tenho feito uns dias detox. Fico sem entrar no Blog e sem ver nada relacionado a isso, saio com as amigas para falar besteira, ver algum filme com atores bonitões, faço comprinhas, cabelo, pé, mão, sobrancelha e essas coisas de mulher.

7 – Percebi que eu cobrava demais de mim e do meu corpo

Essa acho que foi uma das mudanças que mais reparei em mim mesma nesse tempo. Como eu falei, eu ficava quase deprimida por ver tanta mulher linda e pensar que eu precisava ser assim ou assado. E isso foi passando com o tempo. A impressão que tenho é de que as mulheres se cobram demais mesmo e essa cobrança vem delas e, principalmente, entre elas. Eles não reparam que aquela bunda tem celulite — é uma bunda! Ou que você engordou um quilo ou dois e foi para o culote — eles nem sabem que diabos é isso! E aí eu parei de me preocupar tanto com os meus “defeitinhos” e comecei a dar mais valor para o que eu gostava em mim. Acho que funcionou bem.

8 – Vejo tudo em listas

Pois é, não podia deixar este item passar. Não era para ser uma lista, mas virou — como vocês puderam perceber. “O chefe adora listas”, é o que costumo dizer. Aprendi a fazer listas de temas que eu nunca imaginei que poderiam ser listados e aprendi a fazer grandes reportagens nesse formato também (grandes mesmo, uns 8 mil caracteres). Aliás, acho que meus melhores posts foram reportagens em forma de lista. (Recomendo 9 verdades que os homens precisam saber sobre Cinquenta Tons de Cinza, que é a minha preferida).

9 – Adquiri memória seletiva

Deve ter acontecido mais coisa, mas eu esqueci. É o que os homens fazem quando as coisas não são lá tão importantes — eles deletam. Mulheres ficam pensando e remoendo e sofrendo e chorando (eu era assim). Mas dá para encher um painel com foto de bunda bonita no Pinterest em vez disso. E do que eu tava falando mesmo?

Lista: maneiras de ser meiga usando uma camiseta do Testosterona. 💋

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