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Por Sérgio Schargel

Eu sempre fui um viajante. Quando pequeno por imposição de familiares, quando adulto por paixão. Desde criança meus pais me carregavam para o destino que bem os interessasse, às vezes lugares incríveis, vez por outra roubadas inimagináveis (rotas de vinho eram lugar-comum para a tortura de um moleque de 12 anos ou menos). Com menos de 10 anos já havia estado em três continentes, com 23 conhecia 40 países e quase dois continentes inteiros.

Na realidade, comecei a trabalhar pela primeira vez justamente para juntar dinheiro para trabalhar cozinhando e vendendo pequenas comidinhas, um negócio independente que levaria adiante após voltar de viagem. A necessidade de viajar, aliado ao desejo de conhecer o mundo, me fez começar a buscar dinheiro de todas as formas (legais) possíveis. Ir a todos os países do globo antes de morrer e a todos os estados do Brasil são planos que tenho para a minha vida toda.

Mais do que um desejo inerente e um plano de vida, conhecer o mundo que me cerca e, por conseguinte, viajar é a maior felicidade que eu posso ter. Estou sempre economizando e juntando dinheiro para viajar o mais rápido possível, sempre. É o que me faz seguir em frente, continuar, aguentar qualquer cansaço, desilusão, raiva ou dor. Para mim, é entrar em um mundo onírico durante alguns dias em que as regras e convicções presentes no mundo “real” (isto é, a vida cotidiana), não se aplicam. Dieta? Inexistente nas viagens; abstenção de álcool? Ah, definitivamente não em uma viagem. Um velho sábio uma vez disse que o único sentido da vida é aquele que nós demos a ela, pois bem, posso dizer que o sentido da minha é viajar.

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Joshua Jackson em cena do fime “Uma semana” (2009)

Sentido à vida

Mais de uma vez me perguntaram por que eu viajo. Mais de uma vez eu respondi: “porque eu gosto”. E não foi com qualquer intenção de ser rude, foi a mais simples e pura verdade. Algumas pessoas têm seus escapes em drogas, jogos, religião, o que for. Pois bem, o meu escapismo sempre foi viajar. Para mim sempre foi uma fuga da realidade, e por mais agradável que a realidade seja, todo mundo precisa disso em algum ponto.

Conhecer o mundo em que vivemos e as pessoas que nele estão é o meu tudo. Se nada faz sentido, viajar é a exceção desse nada. É entrar em um mundo onírico temporário onde as regras e promessas pessoais deixam de fazer sentido, é se renovar para voltar a rotina e enfrentar todo o ódio alheio, tristeza e desilusão do mundo com um sorriso no rosto. Porque não importa que elas estejam lá, e elas sempre estão, sempre vai haver uma próxima viagem para torna-las suportáveis.

Tipos de viagem

Como você bem sabe, bom leitor, existem vários tipos de viagens. Existe a viagem de casal, viagem de amigos, viagem para festas, enfim, os mais diferentes tipos, dependendo da companhia e das características das pessoas, normalmente feitas em diversos momentos da vida. Um bom viajante já experimentou esses diversos tipos e um bom viajante tem memórias deliciosas de todas elas. Porque não importa onde você esteja, um bom viajante se sente em casa em qualquer lugar, mas é turista em todos, como já diria a banda carioca ForFun.

Mas existe um tipo de viagem em específico que sofre com bastante preconceito: a viagem solitária. Durante a história da humanidade, as pessoas sempre olharam para viajantes solitários com uma estranha sensação de vergonha misturada com tristeza, como se a pessoa que estivesse viajando sozinha é obrigatoriamente uma pessoa solitária só por causa disso. Humanos vivem em sociedade e dependem de outras pessoas para crescer, e talvez por isso muitos não conseguem enxergar pessoas sozinhas sem se sentir mal por ele ou ela. Entretanto isso tem começado a mudar nas últimas décadas, especialmente por causa das novas gerações e principalmente para as mulheres.

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Mulheres viajantes

A independência feminina é algo novo na história da humanidade. Apenas algumas décadas atrás as mulheres começaram a conquistar os mesmos direitos que qualquer outra pessoa e começando a serem tratadas com mais respeito, não mais como algo mais “frágil”. Isso levou a uma consequência óbvia: mulheres começaram a viajar sozinhas. Elas não dependiam mais de viajar com companhias masculinas. Elas começaram a explorar o mundo quando queriam, para onde queriam sendo finalmente livres para isso.

Jorine Buthker é uma estudante holandesa de literatura da Universidade de Groningen com uma grande paixão por viagens. Ela viajou sozinha várias vezes, exprimindo a liberdade de tal ato. Como ela revela: “Eu realmente prefiro viajar sozinha porque me permite treinar o meu inglês, o que eu amo, e principalmente porque eu conheço mais gente e me imerso mais na cultura do país que eu estou visitando de uma forma muito mais intensa do que quando você está viajando com um amigo. Fora isso, você tem total liberdade para fazer e ir aonde quiser”.

Homens ainda viajam mais

Mas homens ainda viajam mais do que as mulheres, por algumas razões, mas uma suposição em específico: medo. Um estudo feito na base de dados da MalaPronta.com, empresa de turismo especializada em plataformas online para reservas de hotéis em todo o Brasil, mostra que 61% das reservas feitas em 2014 foram realizadas por homens, enquanto apenas 39% foram de mulheres. Mas muito ainda pode ter mudado de lá pra cá.

Mesmo com muitos dos direitos conquistados pelas mulheres nas últimas décadas, muitas sociedades ao redor do mundo ainda apresentam índices enormes de violência sexual. Muitas mulheres pensam em viajar sozinhas, mas acabam eventualmente desistindo pelo medo de ficarem sozinhas em um lugar diferente onde não sabem direito como as coisas funcionam. Violência sexual é uma realidade e comum em vários, vários países, assim sendo a principal razão pela qual homens ainda viajam mais, já que esse é um perigo que não atinge os garotos na mesma proporção que às meninas.

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Julia Roberts em cena do filme “Comer, rezar, amar” (2010)

Violência pelo mundo

Jorine também falou sobre suas experiências como sendo uma mulher viajando sozinha para alguns lugares considerados como violentos com muitos índices de violência sexual, como a Índia, e como mulheres tendem a viajar menos do que homens graças a esse tipo de violência. “No último verão eu passei dois meses viajando através da Índia. Eu tinha escutado tantas histórias assustadoras sobre viajar sozinha sendo mulher na Índia, mas eu tinha ouvido também sobre o quão maravilhoso é o país. Eu li cuidadosamente o Lonely Planet para descobrir informações sobre o que usar e o que fazer para evitar encontros desagradáveis com homens.

Eu usei roupas bem modestas e sempre que algum indiano se aproximava, eu levantava minha guarda. Você percebe rapidamente quando eles têm intenções gentis ou não, mas as vezes eles podem estar fingindo. Durante meus dois meses na Índia eu não tive nenhuma experiência pior do que homens me pedindo o número de telefone e eu tendo que insistir que não. Você se acostuma. Mas com certeza existem mais homens viajando sozinhos do que mulheres. Eu acho que isso não se dá apenas pelo medo de violência sexual mas também porque mulheres gostam de estar com alguém que conhecem e podem conversar, enquanto homens normalmente ficam mais confortáveis em saírem com estranhos”.