Sou de Aracaju. Nasci em Aracaju. Vivi em Aracaju a vida inteira. No máximo, me mudei para Salvador durante alguns meses. Desde fevereiro, numa das histórias mais malucas da vida, me mudei pra São Paulo.

Mudei de cidade. Mudei de vida. Mudei de emprego. E principalmente: mudei de casa. Ganhei dois novos vizinhos. Pelo visto, um casal. Jovem, como eu. Não devem ter mais que 26 ou 28 anos. Inclusive, estou sendo até maldoso em acha-los tão velhos assim.

Ela é loira, magra, alta, atlética, toda tatuada. Sabe aquelas garotas suicide girls que vários de vocês leitores do Testoterona amam? Pois bem, eu tenho uma dessa há 11 metros da minha janela. E ainda tem bom gosto: ela ouve Red Hot Chili Peppers com uma frequência impressionante.

Ele é alto, forte, atlético, decidido, tem voz cavernosa, uma barba grande, típicas daqueles fãs de bandas indies como Arctic Monkeys e Kasabian. E pelo visto, é mais tranquilo do que ela.

Em alguns dias, ela perde o controle. Chora, fica triste, diz que “não aguenta mais” alguma coisa, que até hoje eu não sei o que é. Ele é uma espécie de controle dela. Um porto seguro. Impressionante como, muitas vezes, eles discutem e fazem as pazes.

E o que eles mais fazem? Transam. E transam muito. Brigam? Transam. Estão felizes? Transam de novo. Estão sem nada pra fazer? Transam mais uma vez. Me assusta o apetite sexual do casal.

Cena do filme Encontro às Cegas (2015) / Divulgação

Mais do que isso, me assusta o quanto ela geme alto. E ele também. Enquanto escrevo este texto, ouço novamente uma transa dos dois. Estou de fone, e os ouço bem claramente. Um pouco de inveja me corrói por dentro, confesso. Mas que assusta, assusta.

O fato é que meus vizinhos são fascinantes. Não sei mais nada de suas vidas, além do que falei acima. Aliás, nego: eles são adeptos do poliamor. Sim, são swingers, algo assim.

Você deve estar se perguntando: “esse escritor é muito tarado”. Não é. Simplesmente, a janela dela fica muito próximo da minha. Mesmo que eu não queria, eu vejo tudo. Ouço tudo. Noto tudo. De bom e de ruim.

No último sábado, ela estava chorando copiosamente, de forma assustadora. Eu mesmo fiquei preocupado e, pela primeira vez, pensei em gritar para a janela dela e perguntar se ela estava bem.

Visto o que ouvi nesta noite de segunda, parece que tudo está nas mil maravilhas. O fato é que os meus vizinhos são a coisa mais sexual que vi aqui em São Paulo. Me tiram do tédio muitas vezes. E me inspiram a escrever textos, como este. E até um livro. Sim, já ouvi mais coisa deles. E eles me inspiraram a escrever um livro fictício.

Eles são exibicionistas? Certamente. E isso me fascina. Eles deixam a janela aberta porque sabem que tem gente olhando. Ela e ele gemem alto porque sabe que tem gente escutando. E assim, cá entre nós? Quem reclama de gente transando? Eu, nem a pau. Apenas aprecio. E viva meus vizinhos!