A gente já tava saindo há um tempo e, um belo dia, ela mandou o famoso “precisamos conversar”. Nos encontramos pra tomar um café numa sexta-feira. Às sete. Pois é, por aí já dá pra imaginar que não ia dar em boa coisa. Eu já sabia que não ia ter fodinha. Ela pediu chá. Estava com a voz um tanto calma, então, ao que tudo indica, queria brigar. Brigamos. Ela brigou, na verdade. Eu ouvi, quieto. Só prestava atenção naqueles peitões balançando conforme ela mexia os braços enquanto falava, um tanto nervosa. Pedi desculpa e toda aquela coisa. Ela dizendo que me amava, mas que ia embora porque não aguentava mais.

O que eu vou fazer, né? O problema é que não é tão simples. Quer dizer, até é. É que sigo uma lógica minha que é a seguinte: não sou de nenhuma das minhas mulheres, mas não gosto muito que minhas mulheres sejam de mais alguém. Não questiona, cara. É isso.

Bom, daí ela se acalmou, a gente se abraçou – ela triste, eu amassando aqueles peitos. Que horror, nada! Queria ver se fosse você no meu lugar. E ali eu já tava pensando num jeito de dobrá-la. Não é tão difícil, só requer um pouco de prática. Fomos caminhando em direção ao metrô – ela estava decidida a ir embora. Parei de repente, encostei na parede, segurei e puxei sem nenhuma força aqueles bracinhos ainda trêmulos e arrisquei:
– Passa a noite comigo?
– “O quê?!”, ela perguntou indignada.
– É. Não encosto em você, prometo. Só me faz companhia.
– Você só pode estar brincando. Acabei de falar que não quero mais saber de você, não ouviu nada do que eu disse?
– “Juro”, menti.
– Não confio em você.
– Vai…

Cara, é aí que tudo acontece, presta atenção. Ela fez aquela cara de reprovação, meio que levantando os olhos pra alcançar a altura dos meus e tombou a cabeça um pouco pra esquerda, tipo aquela expressão de quem não tá acreditando mesmo. Ela sabia que não ia dar certo. E, nesse caso, “não dar certo” significa “dar certíssimo”. Aí ela trocou a perna de apoio do corpo, colocou aquele meio sorriso no canto da boca, bem sutil. Puxou o ar, estufando mais aqueles peitos e, como era de se esperar, deu um soquinho na boca do meu estômago seguido de um: “Eu odeio você”.

Quando nos demos conta, estávamos tomando café da manhã na padaria ali perto. Ela sorrindo e tomando aquele negócio de suco com mato. Eu ali, olhando pra ela, sem saber se queria um café ou um boquete.