RACHA1
Por muitos anos, correr na Arrancada em São Paulo era uma coisa bem cara até para carros de rua, o que levava muita a gente aos rachas de rua em alguns locais das zonas Sul e Oeste. Como eu ainda era moleque e curtia ver o movimento, toda sexta eu tava ali em um posto da Marginal curtindo o barulho, vendo os pegas e a mulherada que aparecia. Até o dia em que vi uma morte.

Foi uma sexta bem tranquila. Passei o dia em uma oficina de preparação que eu já trabalhava aos 17 anos. Acertamos o Opala 6cc turbo de um amigo nosso, o carro era uma coisa fora do sério, chegava a 200 km/h num pulo. Como o dia foi todo pensando em carros fodas, eu e dois amigos – o dono da oficina e um mecânico chefe de uma montadora – marcamos de ir ao racha da Marginal mais tarde e curtir o rolê que estava voltando a ficar bom. Fazia pouco mais de um mês que uma pessoa havia sido atingida na calçada e fraturado uma perna.

A gente já ficava ligeiro, sempre acompanhando as disputas um pouco mais de longe, onde o risco era menor. Aquela noite específica estava lotada, tinha gente pra todo canto e até nosso amigo do Opala passou por lá dando uma acelerada rápida, apenas uma passagem pra testar o motor. E lá era um esquema maluco de passagem: quem corria, largava de um farol no sentido centro, passava em frente ao posto após uns 500m, pegava um retorno depois de quase 1km, fazia a volta e completava o “circuito”.

Ok, passou o Opala, comentamos sobre, eu e meus dois amigos continuamos papeando por mais uns 20 minutos e ouvimos aquele berro de motor que era típico: 5ª marcha no limite. Era um Kadett GSI (!) turbo passando a mais de 190 km/h na faixa da esquerda. Impressionante! Mas não pro cara bêbado que infelizmente resolveu sair do canteiro central e atravessar a pista naquela hora. Eu até hoje lembro do barulho.

RACHA2

Foi uma pancada fora do comum. Tudo o que vimos foi um corpo girando no ar, sendo lançado a uma altura absurda. O corpo girava tão rápido que suas roupas se desmanchavam. Era fim de inverno, o cara estava de calça jeans e blusa de moletom, caiu no chão sem nada. O Kadett seguiu. Na mesma hora, dezenas de pessoas invadiram a pista, bloqueando o pouco tráfego. Ouvíamos gritos, choro e já dava pra ver as luzes da polícia a uma certa distância. Ao passar pelo corpo, não havia sangue, mas aquilo era assustador, o cara foi todo torcido e dobrado. Já era.

Entramos nos dois carros, em choque. Ainda encontramos o fulano do Opala na madrugada, pedimos água na casa dele e ficamos ali em transe.

No outro dia nos encontramos logo cedo e ainda não havia caído a ficha, nenhum de nós tinha visto um atropelamento daqueles, foi quando veio o senso comum de que nenhum de nós pisaria num racha de rua outra vez, era maluquice aquela porra. Isso foi em 2006 e o assunto rende até hoje.

Veja bem, o problema nunca foi o carro modificado. Conheço várias pessoas que já entraram em racha de rua com carro original, a vontade de correr sempre existiu. A primeira grande questão é que pelo menos até 2009, era quase impossível um piloto amador entrar com seu carro de rua na Arrancada. Cada dia de brincadeira era quase mil reais em despesas.
Quando começaram os “Rachas de Rua de Interlagos” a coisa ficou melhor. Ficou barato correr com segurança e apoio técnico, sem colocar também outras vidas em risco. Mas o paulistano já havia se acostumado a não ter uma pista, a não poder pagar, a não ser educado quanto a isso. Nunca houve divulgação deste tipo de evento oficial e seguro em grandes veículos de mídia.

Se não divulgam, querem conscientizar como?