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Na década de 50, logo após o final da Segunda Guerra, os americanos estavam em um momento espetacular, cheios de orgulho, com seus Hot Rods e outros carros esportivos sempre aclamados por quem então tinha condições de mexer com isso: o tradicional cidadão de classe-média. Na periferia, o povo Chicano sentia falta de também poder desfilar com carros que mostrassem a identidade do seu povo, mas que não fosse tão caro quanto um Hot Rod. Surgia então o movimento Lowrider.

A princípio, a ideia dos chicanos era o low and slow, ou bajito y suavecito, em seu idioma. Eram carros grandes, baratos, confortáveis, ao contrário dos Hot Rods, não recebiam modificações focadas em potência, mas eram baixos. Muito baixos!

Mas o grande problema era o seguinte: carro rebaixado era multado com certa frequência, então nossos amigos chicanos precisavam mudar um pouco seu estilo, pensar em algo que ainda transmitisse a cultura, mas sem ter a polícia enchendo o saco por causa da altura. Entre testes, teorias, experiências bizarras e afins, surgiu algum maluco com uma bomba hidráulica usada em aviões e falou: essa porra vai dar certo pra caralho.

Os caras instalaram bombas e amortecedores hidráulicos em carros já antigos, testaram e viram que dava pra regular a altura do carro,  mas com um detalhe: ele pulava. E foi exatamente o fato de o carro pular com a pressão da suspensão que fez, de repente, o resto do país (e do mundo) começar a prestar atenção naquele pessoal da periferia que montava seus carros a partir de sucatas, na calçada de casa mesmo.

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O carro dar esses pulos é apenas uma fração da cultura Lowrider como um todo. Estamos falando aqui de filhos de imigrantes mexicanos nos Estados Unidos, eles queriam que cada carro fosse uma extensão do povo mexicano, então esses carros eram coloridos, com desenhos e elementos que remetem ao catolicismo, às dificuldades do povo, aos motivos de orgulho. As rodas eram cromadas ou douradas, tudo tinha que se destacar e nenhum Lowrider era igual ao outro.

Não demorou muito para o Lowrider sair da periferia, mas continuou sendo uma identidade daquele povo. Tanto que ainda é o tipo de carro mais presente no Hip-Hop oldschool. Além do carro, o dono também adota um estilo meio que gangsta: calças largas, camisetas lisas e camisas xadrez, lenços, bonés, correntes, anéis e relógios enormes. Tudo isso para mostrar também que Lowrider não é só visual, é a adoção de um estilo de vida.

O dono (ou praticante?) precisa viver a cultura Lowrider, suas origens mexicanas e de periferia (aí vem o motivo de você não ter tantos brancos assim no Lowrider nas primeiras décadas), respeitar seu povo e continuar contribuindo para a comunidade Lowrider.

No Brasil, o movimento não é nem um pouco tímido, mas é restrito. Quando eu morava perto do Capão Redondo, na ZS de São Paulo, tive a oportunidade de conhecer dois ou três membros de um clube de Lowrider. Cada carro leva até dez anos para receber a suspensão hidráulica. Você tem que ser convidado a entrar para o clube, então o clube vai escolher seu carro, vai te ajudar com as modificações e dizer o que pode e o que não pode, você vai ajudar os outros membros, trabalhar em outros carros, fazer parte de uma micro-comunidade.

A história do Lowrider no Brasil começa em 1997, com um mecânico conhecido na zona sul de São Paulo como Japonês. Ele transformou um Galaxy 1968 em Lowrider, foi o primeiro do País e inspirou muita gente por aqui a fazer o mesmo. Como esse cara foi o primeiro, ele se tornou uma lenda entre a comunidade, sendo respeitado por Lowriders de todo o Brasil e até nos Estados Unidos.

Hoje, montar um Lowrider pode te custar algo próximo dos R$ 100 mil. Mas como são projetos de longo prazo, muitas pessoas que entraram nisso nem perceberam que gastaram tanto. É coisa de 5 mil em um ano, 15 em outro, 8 mil em algum outro ano e por aí vai. E a comunidade se ajuda, então se você está ali pelos outros membros, é certeza que vai finalizar seu carro. Afinal, outra caracteristica sempre valorizada entre o povo do Lowrider foi a lealdade.