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Seja Homem! [Crônicas Masculinas #2]

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Crônicas Masculinas é uma série do Testosterona que acompanha a vida de Pedrinho à partir dos seus 15 anos de idade. A cada crônica descobrimos algum acontecimento na vida de Pedro Henrique, que está um ano mais velho que no texto anterior.

Crônicas Masculinas

#1 – Primeiro Amor

Seja Homem!

“Seja Homem!” foi a frase mais ouvida por Pedrinho naquele ano de 1996. Ele só entendeu muitos anos depois que aquelas duas palavrinhas repetidas à exaustão pelo seu padrasto deixaram marcas profundas na sua personalidade. Cá entre nós, ninguém sabe o que é “ser” e muito menos o que é “homem” enquanto ainda está em pleno processo de desenvolvimento. Teria sido muito mais fácil se lhe dissessem apenas: Seja você!

Também foi muito tempo depois, quando ninguém o chamava mais pelo diminutivo que Pedrinho veio a entender o que é “ser”. “Homem” ele aprendeu rapidinho com as referências do padrasto, dos amigos e com a ajuda de estereótipos passados de geração pra geração. Assim, foi moldado para se comportar de acordo com o que a sociedade espera de um “homem”: ou seja: reprimindo emoções.

Quando se sentia pra baixo por não ser correspondido por alguma garota, seu padrasto dizia que ele precisava “parar de agir igual mulherzinha”. No colégio o exemplo era o seguinte: o Guilherme que namorava uma das garotas mais legais do mundo tratava os amigos melhor do que a própria namorada. 

Entre os homens tudo parecia sempre uma grande competição: quem tem a namorada mais bonita, quem pega mais mulher, quem perde a virgindade primeiro. Não importava o assunto, o negócio era contar vantagem. O famoso “meu pau é maior que o seu”.

As mulheres nunca eram valorizadas ou exaltadas, pelo contrário: sempre tratadas como objetos de conquista. Seu amigo Fernando, um rapaz de fala mansa e jeito de surfista, se gabava por ter saído com uma dezena de garotas, apesar de falar mal da maioria depois. Pensando bem, o exemplo maior vinha de casa: enquanto sua mãe cuidava das tarefas do lar, o padrasto distribuía ordens do alto da sua indefectível sabedoria popular, que pregava a supremacia masculina.

Por essas e outras que o ano de 1996 foi muito difícil pro Pedrinho, tais exemplos conflitavam com sua forma de pensar. Pra piorar as coisas, de forma geral ele se dava muito bem com as garotas da sua sala, mas nenhuma parecia ter interesse em ficar com ele de fato, o que só reforçou na sua cabeça que ele precisava “ser homem”. 

Quando declarou de forma desajeitada que gostava de certa garota, ela disse: “você é um fofo, mas eu gosto do Fernando, um dia ele vai ser meu”.

O Fernando, que aliás foi preso por espancar essa própria mulher anos depois, certa vez o aconselhou: “Pedrinho, você dá muito papo pra essas meninas, se você quer transar com elas não pode ser assim cara, seja homem! Mulher só quer um cara bonzinho pra ser amigo e contar fofoca”.

A insegurança, os hormônios, a completa falta de sentido no comportamento das pessoas acabaram por transformar Pedro Henrique num adolescente fechado e introspectivo. Não se sentia bem com os próprios amigos; tão pouco com as garotas. Parecia que o tempo todo estava sendo culpado por “não ser homem de verdade”. Os julgamentos o sufocavam: adorava assistir futebol, mas era péssimo nas aulas de educação física. “Seja homem, Pedrinho, jogue bola!”. Odiava as brigas sem sentido que aconteciam na saída do colégio e que serviam como demonstração de masculinidade. “Seja homem, Pedrinho!, saia na porrada”.

O garoto não queria marcar território como um cão mijando num poste, bastava a Pedrinho curtir as bandas que gostava de ouvir e encontrar pessoas com os mesmos gostos que ele. Não podia ser tão difícil assim!, ele pensava. Mas era.

Quando apareceu com a camiseta do Nirvana na escola foi chamado de revoltadinho pelos colegas. Logo ele, o cara mais gente boa do bairro resumido ao estereótipo do roqueiro alienado. Só um cara de outra sala, o Rafael, comentou apontando pra estampa da camiseta de Pedrinho que adorava o cabeludo que maltratava o kit de bateria sem dó nem piedade. Bom sujeito, ficaram amigos anos depois.

Decidiu não sair mais com a turma do colégio. Viveu o drama adolescente de não se encaixar nos padrões esperados. Precisava de ajuda, mas tudo indicava que mostrar vulnerabilidade era sinal de fraqueza, afinal,  foi ensinado que homem não chora, não sente. Não havia nada a ser feito além de se retrair. Evitou sair de casa, passou meses ouvindo sua coleção de cd’s do Nirvana e do Soundgarden enquanto jogava Doom, não gostava do Pearl Jam, achava o som muito leve, senso comum demais, igual os babacas da sua sala.

Enfim, 1996 definitivamente não foi um ano fácil pra ele, mas Pedrinho seguiu da melhor forma que pode. Quando decidiu fazer aula de contrabaixo já no final do ano, conheceu outra turma um pouco mais sintonizada com seus gostos. Também arrumou um emprego numa papelaria, onde conheceu Gisele. 

As coisas voltaram mais ou menos ao normal depois de um tempo. Pedrinho bateu cabeça “tentando ser homem”, errou mais do que acertou e quando começou a namorar com Gisele não a tratou como um troféu, mas seu ciúme tornou o relacionamento conturbado.  Ele não percebeu na época, mas sua atitude autoritária sobre alguns aspectos do namoro eram reflexo do exemplo que tinha em casa. Pouco tempo depois ela terminou com ele e Pedrinho se viu sozinho e deslocado outra vez. 

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