Syanne Neno foi a primeira repórter esportiva a vestir saias no estado do Pará, apresentou por 10 anos o Globo Esporte regional e foi, durante esse tempo, a repórter de Rede, contando as histórias do Paysandu na Libertadores da América, em 2003, para todo o Brasil. Hoje, com 42 anos, Syanne mantém o blog Neno de Salto e é colunista no Testosterona Sports.

Para o Testosterona Entrevista, Syanne contou sobre sua paixão pelo Paysandu, sobre o subestimado futebol da segunda divisão e mais: que já viu jogador sem toalha em entrevista no vestiário!

Entrevista: Fran Vergari

Conta como é o seu caso de amor com o jornalismo esportivo?

Sempre fui apaixonada por futebol! Comecei a ir ao estádio com uns 7 anos, acompanhando meu pai e meu irmão. Ficava fascinada com a torcida, os cantos e as vezes esquecia até do jogo para prestar atenção naquelas figuras típicas dos estádios: o velhinho com o radinho de pilha, o desdentado sem vergonha na hora de gritar o gol…Tudo me despertava tanta curiosidade quanto os discos de história que eu escutava. Comprava a “Placar’ e colecionava figurinhas, uma loucura! (risos) Assistia às reportagens de TV sobre os jogos de futebol e prestava atenção nos textos, desde antes de decidir fazer jornalismo. Minha irmã era repórter de TV na afiliada da Globo em Belém e eu pedia a ela para me trazer os roteiros do Globo Esporte. Ficava lendo na frente do espelho, fingindo ser apresentadora. A decisão já estava dentro de mim e eu nem sabia. Escrever sobre futebol e sentimentos era meu sonho, que virou realidade.

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Foi difícil em algum momento por você ser mulher? Sabemos que o clube do bolinha geralmente resiste à presença de mulheres.

Fui a primeira repórter esportiva a vestir saias no Pará. E quando comecei, tinha 21 anos e cara de menininha. Foi difícil no início ser assertiva e convencer aqueles marmanjos que aquela baixinha não estava ali pra tietar jogador e que eu entendia, sim, sobre futebol. Mas a aceitação foi menos demorada do que eu pensava. Graças a Deus, o meu talento conseguiu despontar de forma inquestionável.

Já aconteceu de passar por situações embaraçosas por ser mulher? Tipo, receber cantada de fonte, essas coisas? 

Não. Acho que o fato de ser reservada e tímida (sim, eu era!) ajudou. Agora, com jogadores já é mais complicado. Uma noite, depois de um Paysandu x Flamengo, em 1995, tive que entrar no vestiário, que é uma coisa que evitava de todos os jeitos. Naquela época, não tínhamos assessor de imprensa. O Flamengo perdeu o jogo por 2 a 0 e o então técnico Edinho caiu. A nossa afiliada pediu uma entrevista com ele para o Jornal da Globo. Não tinha jeito dessa vez.  Respirei fundo e entrei no vestiário do Flamengo. Fiz a entrevista com o Edinho, mandei pelo motoqueiro e, aproveitando o embalo, gravei com o Edmundo também. No meio da entrevista, ele deixou cair a toalha com a qual ele estava enrolado. Me fiz de lesa, continuei com o nariz empinado, terminei a entrevista, agradeci e fui embora.

A paixão pelo Paysandu você consegue explicar?

Meu tio era jogador e foi o herói bicolor do título de 72, com um gol no último minuto. Meu pai já foi diretor de futebol do Paysandu e eu amava ouvir as histórias dele. Futebol era o principal cordão umbilical da caçula temporã com o pai. A paixão pelo Paysandu aumentou ainda mais depois que virei jornalista. A época gloriosa do Papão, Campeão dos Campeões, que foi à Bombonera calar o Boca Juniors, foi a minha melhor fase profissional. Eu ajudei a contar a história desse time para o Brasil. Como não amar?

O público não implica por você declarar para qual time torce? 

Em Belém, a rivalidade é algo que extrapola qualquer limite do bom senso. A implicância de alguns torcedores do Remo era enorme, mas na época em que era repórter da Globo em Belém. Meu sorriso era o símbolo do “insucesso” do rival. E sabe como é cabeça de torcedor fanático, eles viam uns 64 dentes em mim quando eu falava do Paysandu… Mas isso foi serenando com o tempo e principalmente com os meus textos nas crônicas para o jornal e blog. Independente do time, eles sabem que eu escrevo com paixão e verdade. Meu maior orgulho hoje é ver textos sobre o Remo até mais elogiados do que alguns sobre o Paysandu.

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E com os blogs agora, como está sendo o digital para você, com o retorno imediato dos leitores? 

Estou em um relacionamento muito sério com o jornalismo digital. O blog e a repercussão dele através das redes sociais é muito estimulante.

Sua coluna no Testosterona Sports é sobre a série B do Brasileiro. Acha que é um jeito de levar mais espectadores para a segunda divisão?

Espero que sim! Decidi escrever sobre a série B porque, além de ser a minha realidade, esse ano traz o Brasil de fato em campo, com times de todas as regiões. É um universo muito rico de personagens e culturas diferentes.

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Aliás, acha que as pessoas subestimam o futebol da segunda divisão?

Acho que subestimam porque acabam sabendo menos sobre ele também. Falta um pouco de carinho da mídia nacional. É preciso assimilar de vez que existe talento além da série A. A divulgação é menor e o torcedor não tem estímulos para se interessar pela série B.

Tem algum projeto em mente, além do blog? 

Quero fazer especialização e virar professora. Continuar aprendendo sempre, estudar e também ensinar. Me fascina a ideia de repassar experiência, dicas e ajudar a formar profissionais éticos, criativos, que amam de verdade o futebol e não usam o jornalismo esportivo apenas como um trampolim para “aparecer na TV”.