O Círculo de Fogo (Pacific Rim; 2013) original tinha elementos essenciais que o diferenciavam da grande maioria dos blockbusters com robôs gigantes. O principal deles, é claro, era o diretor Guillermo del Toro, com sua paixão quase pueril pelo gênero tokusatsu e super sentai (power rangers, evangelion, ultraman, gundam). Através das lentes de Del Toro, toda essa carga iconográfica dos robôs e monstros gigantes era reverenciada, com influências de várias obras que geravam um novo universo para ser incluído neste gênero.

Dessa paixão também pelo monstruoso – e por achar a beleza no monstruoso, outro tema recorrente da filmografia do mexicano – havia o peso, de forma literal e figurada: seus Jargers (os robôs gigantes controlados pelos humanos) nunca pareciam bonequinhos de brinquedo, e sim máquinas colossais com escala e densidade que moviam-se lentamente e custavam a caber no quadro, evidenciando ainda mais seu tamanho. Os Kaijus (os monstros gigantes) possuíam uma bioluminescência de uma beleza contraditória com o resto de sua anatomia grotesca.

Assim, nos designs sempre inventivos e cativantes de del Toro, sabíamos diferenciar muito bem cada um desses gigantes – até mesmo os monstruosos. Seus personagens humanos eram caricaturas rasas saídas direto de um anime, e, justamente por se apegar a este universo fantasioso com tanta paixão, este elemento funcionava. E havia, é claro, os embates, que – bem pontuados dentro da narrativa – tinham um exagero característico, mas também uma atmosfera épica toda particular que diferenciava a obra de um Transformers, onde nada tem peso, nada tem clímax (já que tudo para Michael Bay é um clímax).

Vamos aos fatos de “Pacific Rim”

Após esta longa introdução, é hora de saber, afinal, onde este novo Círculo de Fogo: A Revolta (Pacific Rim, Uprising; 2018) se encaixa. A resposta: em algum lugar entre um Michael Bay e um Guillermo del Toro, justamente. Sai o recém vencedor do Oscar por A Forma da Água e entra Steven S. DeKnight (Showrunner de Demolidor da Netflix), e a mudança de estilo é visível. Nesta sequência, acompanhamos o rebelde Jake Pentecost (John Boyega) – um piloto promissor de Jaeger cujo pai, Stacker Pentecost (vivido no primeiro por Idris Elba) deu a vida para garantir a vitória da humanidade contra os monstruosos Kaijus – abandona sua formação apenas para tornar-se preso ao submundo do crime.

Quando uma ameaça ainda mais imbatível desencadeia pelas cidades, ele tem uma última oportunidade de honrar o legado de seu pai através de sua irmã distante, Mako Mori (Rinko Kikuchi). Do primeiro filme, retornam também Hermann Gottlieb (Burn Gorman) e Newton Geiszler (Charlie Day), os dois cientistas e fanboys obcecados pelos Kaijus.

Se os dois coadjuvantes no primeiro Círculo de Fogo faziam o papel do fã, aqui eles ganham companhia da novata Amara Namani (Cailee Spaeny), que lista incessantemente os nomes dos Jaegers quando é recrutada para um programa de jovens pilotos por Nate Lambert (Scott Eastwood), piloto de Jaeger e velho amigo de Jake.

Nessa dualidade, Círculo de Fogo: A Revolta possui aspectos que funcionam muito bem: se de início o design dos Jaegers e os uniformes de seus pilotos parecem limpos e “clean” demais, contrastando o enferrujado e gasto do primeiro filme, essa escolha acaba dando veracidade àquele mundo, já que representa uma progressão lógica do que foi mostrado.

Essa progressão, aliás, vem também nos conceitos apresentados por Del Toro no primeiro filme, que são expandidos de forma satisfatória. As sequências de ação funcionam na maior parte e conseguem empolgar os fãs do gênero, apesar de algumas ressalvas. John Boyega entrega em Jake um protagonista que evoca o estilo marrento de Charlie Hunnam e seu Ralleigh no primeiro filme, mas adiciona uma veia cômica que funciona quando não é prejudicada pelo roteiro.

As sensibilidades contrastantes de DeKnight acabam sendo o que mais prejudica essa obra. Se este é um universo caricatural, os momentos mais sérios e de drama acabam colidindo diretamente com a galhofa, como numa cena particular de morte que deveria ser traumática como uma do primeiro longa mas, devido a forma como é conduzida, não se encaixa no filme. Nessa ideia de contrastes, há aqui a clara necessidade de agradar ao público de Transformers, e o início de A Revolta representa muito bem isso.

O prólogo é a cara de del Toro, onde uma montagem narrada por Jake nos situa naquele mundo e soa, realmente, como a recapitulação de um episódio anterior de um anime. Logo em seguida, porém, temos uma cena de ação obrigatória para abrir o filme que vem como um representativo dos blockbusters descerebrados dessa época: exagerada e sem peso. Isso se reflete também na quantidade de Jaegers presente, como se todos agora fossem descartáveis.

É ação que você quer?

No entanto, o filme se recupera, e possui algumas sequências de ação eficientes que agradam qualquer fã de filmes de monstros. A escala dos Jaegers não é mais tão sentida, mas o espetáculo acaba funcionando. O terceiro ato, porém, cede aos vícios da cena de ação inicial, esquecendo de que, até nestes filmes, às vezes menos é mais.

No fim, quando Círculo de Fogo: A Revolta foca nas excentricidades provenientes de suas origens orientais e dos filmes B de monstros trazidos pela visão sempre particular de Guillermo del Toro, ele funciona muito bem. Quando se entrega ao Blockbuster americanizado mais convencional, ele perde a identidade da série. É uma sequência que funciona e diverte os fãs (a sessão em Imax é obrigatória), mas, – como evidenciado pela cena final – pode caminhar facilmente para o caminho da franquia genérica de robôs gigantes da vez.



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