Para quem está acostumado a ver filmes brasileiros da linha “favela carioca” ou “comédia com globais”, vai se surpreender (para o bem) com esse novo longa nacional, “Mundo Cão”, que estreia dia 17 de março nos cinemas.

Seria muita sacanagem fazer uma lista de motivos para você ver Mundo Cão no cinema dada a complexidade e riqueza de assuntos tratados com tanto cuidado. Para começo de conversa, o elenco conta com Babu Santana (Tim Maia; Cidade de Deus), Lázaro Ramos (Ó Paí, Ó; Madame Satã) e Adriana Esteves (a eterna Carminha, de Avenida Brasil), o que já é um grande diferencial. O diretor, Marcos Jorge (Estômago; O Duelo), já havia trabalhado com Babu antes e confessou, na coletiva de imprensa, que o personagem é chamado de “Santana” justamente “por combinar tanto com a pessoa de coração enorme que é o Babu também”.

SÃO ASSUNTOS DO SEU COTIDIANO

Marcos Jorge juntou temas polêmicos e delicados, como a sua vontade de falar sobre paternidade, sobre a relação entre pai e filho, sobre “o menino da carrocinha”, maus tratos aos animais, justiça com as próprias mãos, corrupção, burocracia e por aí vai. Então, é bem complexo e de uma profundidade psicológica tão grande que envolve, prende e cria sensações de desconforto, compaixão e reflexão.

É CHEIO DE REVIRAVOLTAS E SUSPENSE

No filme, Santana (Babu Santana) é um funcionário do Departamento de Combate às Zoonoses que trabalha recolhendo cachorros perigosos das ruas, na época em que a lei que proíbe o sacrifício de animais sadios ainda não havia sido sancionada, antes de 2007. Avesso a confusões, ele leva uma rotina tranquila com sua esposa e filhos até o dia em que seu caminho se cruza com o de um rottweiler. Por um mal-entendido, o dono do cão, Nenê (Lázaro Ramos) se indispõe com Santana e suas atitudes vão alterar completamente a vida dele e de sua família.

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QUEM GOSTA DE ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO VAI SE EMOCIONAR

Sobre a questão dos cachorros, até 2007, antes da Lei Feliciano (Lei Estadual 12.916/08), de autoria do deputado Feliciano Filho (PEN-SP), os animais capturados nas ruas eram levados ao canil público e enfrentavam um destino incerto: se tivessem dono e esse aparecesse em até três dias, voltavam para casa. Se ninguém aparecesse, eram sacrificados. Nesse ano, foram eutanasiados quase 14 mil animais. Hoje a Lei e proíbe a matança indiscriminada de cães e gatos nos canis municipais do Estado de São Paulo. Uma das cenas que mostra Ramiro (Paulinho Serra), um funcionário do canil, percorrendo o “corredor da morte” em busca de um cachorro que será submetido à eutanásia, já foi liberada e você pode ver aqui.

E OS CÃES FORAM TÃO IMPORTANTES PARA O FILME QUE ESTÃO NOS CRÉDITOS FINAIS

Sim! O diretor conta que fez questão de que os nomes dos cães aparecessem nos créditos do filme. “Deu muito trabalho de preparação e filmagem com os cachorros. E trabalhar com cachorro é infernal! Não dá para marcar o lugar onde vão ficar, e principalmente, é difícil fazer os cães parecerem agressivos sem que eles realmente sejam agressivos, até por uma questão de segurança para a equipe. Mas eles foram atores para mim e mereceram estar nos créditos, os nomes deles e dos personagens que fizeram”, conta Marcos Jorge.

LÁZARO RAMOS ESTÁ SENSACIONAL COMO VILÃO

Estamos acostumados a ver Lázaro Ramos em comédias e papeis mais “leves”. Para fazer o vilão “Nenê”, o ator contou que precisou de esforço: “A coisa da vingança com as próprias mãos é um assunto em que eu penso muito. Mas o Nenê tem isso da paixão pelo futebol e por cachorros muito mais que eu, ele é o oposto de mim. E pude ver como o ser humano é e até onde pode chegar por esses dois motivos”, falou Lázaro na coletiva.

TEM MUITO FUTEBOL E CENAS SENSACIONAIS NO PACAEMBU

A temática do futebol é muito presente no filme, até fanática. E uma das melhores cenas (e depois descobrimos que foi um trabalho absurdo gravar) acontece no Pacaembu, num dia de jogo do Palmeiras pelo Campeonato Brasileiro de 2007. Marcos contou que, para o plano sequência, foram usadas diversas câmeras e até um drone, para que tudo ficasse perfeito. Também contaram que foi tudo gravado com o estádio vazio – mas juro, você não vai acreditar quando vir o filme.

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O ELENCO É PREDOMINANTEMENTE NEGRO

E isso foi trabalhado “a fundo” de propósito, segundo o diretor: “Quando demos o papel para o Babu e a Adriana topou fazer, fomos atrás de atores para serem filhos e todos os testes deram muito trabalho. Nós queríamos dois atores que parecessem muito ser filhos dos dois e que fossem bons atores. Acertamos em cheio com a Thainá [Andrade] e o Vini [Carvalho]. E escolhi o Babu e o Lázaro, não porque são negros, mas porque são dois dos melhores atores que temos hoje no Brasil”. A temática “black” ainda entra em toda a musicalidade do filme, o ritmo, a bateria, etc.

FAZ VOCÊ PENSAR SOBRE IMPULSIVIDADE E COLETIVIDADE

Todos são muito impulsivos no filme, tanto para criar quanto para tentar resolver os problemas. E também tem a questão da coletividade, do corporativismo. Até onde você assumiria uma culpa (que não é só sua) e tomaria as dores para defender a sua equipe, a sua profissão, o seu trabalho? Confesso que tirei uns minutos para refletir sobre isso depois do filme.

Aqui, a primeira cena liberada mostra o embate entre o personagem de Lázaro e o de Babu Santana:

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