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Logo na página inicial, o dedo indicador encostado nos lábios sugerindo silêncio já representa a intenção dos que vão clicar para preencher o formulário de inscrição. Forçando ainda mais a barra na tentativa de tranquilizar os potenciais usuários, as palavras “discreto”, “seguro” e “confiança” se destacam na página, e bastaram 30 segundos para que se pudesse dar início à procura. “A vida é curta. Curta um caso”, propõe o site que garante que trair “nunca foi tão fácil”. Com três milhões de usuários só no Brasil (33 milhões no mundo), segundo sua assessoria, o Ashley Madison está entre as redes sociais que lucram com a infidelidade.

Presente em 50 países, o site tenta agora retomar atividades na Coreia do Sul, onde é banido, após a Justiça do país ter abolido no último dia 26 de fevereiro uma lei em vigor há mais de 60 anos que penalizava o adultério. O Brasil ocupa o segundo lugar em faturamento e em usuários no mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos.

Para entender o que atrai o acesso de tantas pessoas, a reportagem criou um perfil no site. Optou-se por um nome fictício e foi pulada a etapa de colocar uma foto.  Com essa escolha, o site logo avisou: a probabilidade de alguém contatar um perfil sem imagens era cerca de 37 vezes menor. Mais alguns cliques e chegou-se ao “cardápio” principal. Embora haja a opção de pessoa solteira em busca de parceiros, a grande maioria dos perfis era mesmo de comprometidos buscando um caso — pelo menos na internet. Em uma semana sem foto no perfil, as abordagens foram poucas e apenas pingavam as chamadas “piscadinhas” que são a marca registrada do site.

Alguns dias depois, foi colocada no perfil uma foto em que não se mostrava um rosto, apenas o tronco da pessoa. Em menos de dez minutos, mensagens começaram a chegar à caixa postal e já era possível colecionar acessos às fotos privadas de outros usuários. São registros de viagens, inúmeros “selfies”, alguns retratos posados no espelho. A maioria do pescoço para baixo, dispensando a camisa, ou, quando os usuários ousam mostrar o rosto, utilizam o duvidoso recurso da máscara ou da tarja que o site oferece. Mas não são poucos os corajosos que mostram a identidade. E há fotos explícitas. É possível ocultá-la, como explica o site, em miúdas letras azuis.

O perfil criado é o de uma suposta mulher casada. As abordagens de aproximação variavam: “Quero uma boa amizade colorida”, dizia um interessado. A caixa de entrada se dividia entre os que apenas tentavam contato (“Oi, gata, podemos conversar? Depois marcamos um encontro”), aqueles mais diretos (“Me liga, anota meu WhatsApp e Skype”) e os que se abriam, mergulhando numa catarse (“A rotina é fogo”).

CONQUISTA, A CHAVE

Nas descrições, o campo semântico gira em torno de prazer, curiosidade, fuga da rotina, sigilo, frio na barriga e uma chance de aproveitar a vida. Entre os depoimentos dos casados, alguns motivos do tempo gasto na rede social sobressaem: por exemplo, insatisfação no sexo, mas vontade de permanecer comprometido.

— É comum que pessoas com questões mal resolvidas pessoalmente ou frustradas em alguma área da vida vejam na traição uma saída, mas ela acaba sendo uma fuga que não resolve o problema — afirma a psicóloga e especialista em mudança de comportamento Daniela Faertes. — A traição on-line é mais uma forma para aqueles que decidiram trair. Ela se diferencia do uso dos serviços de prostituição por não envolver dinheiro e ter a questão da conquista. Além disso, fica claro para ambas as partes que são pessoas comprometidas.

Embora os homens sejam maioria (65%) no site, as mulheres também têm participação significativa (35%). No entanto, o número varia conforme a faixa etária. Por exemplo, acima dos 50 anos, são 13 homens para cada mulher (99% são homens), o que a empresa chama de “Geração Viagra”. Já na faixa dos 20-40 anos, há um homem para cada mulher (50%).

— Na época do lançamento no Brasil, em 2011, recebi inúmeros e-mails com críticas de grupos religiosos. Fui mandado para o inferno várias vezes, mas há mais de um ano não recebo nada do tipo — conta o diretor-geral da Ashley Madison no Brasil, Eduardo Borges.