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Mulheres que reclamam

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As mulheres reclamam com seus parceiros. Quem quer que tenha vivido intimamente com uma delas sabe disso. No começo, tudo é lindo. Seu jeito distraído, sua preguiça, sua falta de praticidade. Depois de algum tempo – um ano, seis meses? Ainda não descobri – elas param de gostar de tudo e começam a implicar com quase tudo. Você leva bronca porque derruba café na mesa, porque esquece de pagar as contas, porque não lavou a louça. Aos poucos, começa a se sentir como filho. Uma raiva surda e infantil vai tomando conta de você, que também começa a implicar de volta com quase tudo que ela faz. Assim começam a acabar os casamentos, da forma mais banal. Porque as mulheres reclamam.

Claro, há mulheres com razões de sobra para reclamar. A vida dura no trabalho, as tarefas da casa que o sujeito não divide, os maus hábitos desses homens-meninos de classe média criados por empregadas e mães indulgentes. Mas nem todos os homens são assim, não o tempo todo. Esse rígido olhar materno, entretanto, está lá, permanentemente, voltado para qualquer tipo de sujeito. A maioria das mulheres parece chegar às relações conjugais munida com ele. Na mesma gaveta cultural em que estão os cuidados com a casa, a disposição de cuidar de tudo e aquela lealdade profunda e comovente com o seu homem, encontra-se, também, esse duro olhar maternal sobre o companheiro.

Esse jeito condescendente de olhar para os homens às vezes me parece a manifestação de um rancor antigo e mal disfarçado. É como se as mulheres dissessem “ok, a gente deixa que vocês mandem no mundo, mas aqui, da porta para dentro, vamos deixar bem claro que vocês são uns imbecis”. Não acho que seja consciente. É profundo, cultural, está embebido na mentalidade feminina que passa de mãe para filha. Faz parte daquele código silencioso que se aprende sem palavras, apenas pela observação do pai e da mãe, do tio e da tia, do avô e da avó. Os exemplos sugerem às mulheres que é preciso mandar nos homens e ralhar com eles como se fossem filhos. Os homens aprendem, assistindo, desde meninos, que isso faz parte da vida.

O diabo é que ninguém está realmente satisfeito com o papel que lhe cabe nessa história. Os homens não gostam de ser o idiota doméstico que a tradição celebra. Esse negócio de ser tratado como menino, por razões psicanalíticas, é uma das coisas mais incômodas na vida de um sujeito adulto. Ofende e debilita de um jeito tão profundo que ele nem se dá conta. É comum que o ressentimento inconsciente dele exploda na cama, na forma de indiferença pela parceira: meninos não fodem, madame. Quem fode são os homens, capice?

As mulheres, claro, detestam o papel de bruxas domésticas. Se fosse dada a escolha, elas certamente prefeririam viver com um dos raros homens fluentes na língua da casa e das crianças, alguém com quem se pudesse, efetivamente, dividir a pesada tarefa de organizar a vida, cuidar dos pequenos e preparar as coisas para as férias. Mas, quando os homens de carne e osso se apresentam, na sua imensa precariedade psicológica, nas suas incontáveis incompetências, elas, em vem de mandá-los embora, os adotam e se apaixonam por eles. Talvez pelas fraquezas deles. Recebem, acolhem, fazem sexo com eles. Rapidamente, se põem a educá-los, com alguma perversidade, nas tarefas práticas da vida. Como as suas mães e avós fizeram com seus pais.

Não sei se existe uma saída para esse labirinto de repetições.  Certas coisas vêem de tão fundo na gente que é difícil eliminá-las por completo. Talvez nós, homens, sejamos tão marcados pelo papel de filhos que seja impossível nos relacionarmos intimamente com uma mulher sem incorrer num comportamento confortável e doloroso de criança. Para muitas mulheres, talvez seja impossível receber um homem dentro dela se ele não tiver algo de filho. Tornar-se mãe, ainda que de um jeito simbólico, talvez seja a única forma de legitimar as sensações ao mesmo tempo vergonhosas e felizes do prazer sexual. Especulo e viajo, naturalmente.

Do ponto de vista prático, acho que a única coisa que se pode fazer para defender as nossas relações dessa tendência nefasta é combatê-la com unhas e dentes. Brigar com a mulher quando ela tratá-lo como filho, mas evitar, ao mesmo tempo, que se criem as situações para que esses arroubos de Dona Maria apareçam. Um homem que partilhe as tarefas da casa e da vida, que não empurre a mulher para o papel de “mãe”, que não se coloque comodamente na condição de filho, estará ajudando todo mundo a crescer. Uma mulher que não tente garantir a sua posição de poder tornando-se a rainha do lar também ajudará. Se ela, em vez lavar a louça bufando, quase como um insulto ao companheiro, deixar que sujeira cresça na pia até que ele faça a sua parte, como ela faria com uma colega, estará contribuindo com ele e consigo mesma. O essencial, eu acho, é sair dos papéis clássicos e achar novos arranjos de vida em comum que sejam menos broxantes.

No sexo talvez se encontre uma pista sobre como a gente gostaria de viver. Quando se está transando, no ardor dos corpos que se enroscam, as fantasias não costumam ser de homens-meninos e mulheres-mamães. As mulheres nesses momentos cheios de luxúria e fantasia querem um sujeito que tome conta do corpo delas, da verdadeira casa delas, com a autoridade de quem sabe o que faz.  Os homens tampouco querem uma mãe mandona para guiá-los. Gostam de ser os senhores da situação, capazes e viris. Acho que essa dupla fantasia, que emerge do mais fundo do que somos, sugere algo a respeito do que aspiramos ser. Ela nos indica, pelo menos, que talvez não tenhamos nascido para brincar de mamãe e filhinho, para reclamar um com o outro – e, mais tarde, separarmo-nos, cheios de raiva e frustração, por não termos conseguido superar os papéis domésticos medíocres que a nossa criação nos reservou.

Ivan Martins

 

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