Você segue as meninas no Instagram, adora as fotos, mas não sabe muito bem como funciona, como são escolhidas, nem de onde vêm, certo? Tudo bem, a gente vai contar tudo direitinho para você entender e gostar ainda mais.

Do começo

A criadora do site Suicide Girls, Selena Mooney (que atende por Missy Suicide), começou a fotografar amigas com tatuagens e piercings em um projeto que tinha o objetivo de dar espaço para a chamada “beleza alternativa”, em 2001. O termo “garotas suicidas” vem do livro “Sobrevivente”, de Chuck Palahniuk (que você deve conhecer como autor de “Clube da Luta”) e, segundo ela, é um bom jeito para definir as meninas que cometem suicídio social por não aderirem aos padrões.

O site, agora com 13 anos, recebe mais de 5 milhões de visitantes únicos por mês (mais que a metade do público tem idade entre 18 e 24 anos e, pasmem, 51% do público é feminino). Isso, de modo geral, é atribuído ao fato de que as Suicide Girls são como uma inspiração para outras meninas. No Facebook, são quase 6 milhões de fãs e mais de 3 milhões de seguidores no Instagram.

Inicialmente, eram meninas tatuadas e com estilo bem alternativo, mais punk, góticas, etc. Tudo foi mudando com o tempo e se adaptando à época, aos novos conceitos e até conforme a fotografia. Agora o estilo é até mais clean, se você reparar, com meninas mais delicadas, às vezes sem nenhuma tatuagem, com dreads, skatistas, geek, etc.

Com mais de 3 mil modelos, o site comercializa tudo que estiver ao seu alcance, desde as fotos, ao custo de US$ 12 por mês ou US$ 48 por ano, a livros, roupas, adesivos e até HQs. O próximo passo, de acordo com Missy Suicide, é investir na turnê do show burlesco “SuicideGirls: Blackheart Burlesque” e em filmes.

KASHA
Foto: Talena Suicide

Como acontece

Mas não vá pensando que é assim, dormir, e de repente acordar Suicide Girl. A seleção é bem criteriosa e longa. Kasha Lee é modelo Suicide Girl há 10 anos, recrutadora de meninas no Brasil e fotógrafa hopeful, e conta como funciona todas as etapas do demorado processo para escolher uma menina interessada em entrar para o time:  “Primeiro tem a abordagem via web, para saber se a menina tem mesmo o lifestyle do site e gostaria de se divulgar como uma SG. Depois de ter certeza que ela seria uma possível modelo, ajudo com o cadastramento e todo processo de documentação (que é bem complicado) e também faço os ensaios para enviar tudo ao site. É uma conversa muito delicada e amiga, pois é um trabalho de nu vinculado à internet”, esclarece Kasha.

Kasha também conta que as brasileiras têm se interessado pela ideia cada vez mais. O último recrutamento que fez tinha 70 meninas cadastradas e mais 30 em processo final. Hoje, no site, são 15 representantes brasileiras ativas e mais 30 hopeful (que são as meninas ainda em processo de seleção).

Bruna Bruce tem 23 anos e é uma das maiores representantes brasileiras. Ela viu no site uma oportunidade para fazer o que sonhava com o estilo que tinha e gostava: “Quando era mais nova tentei ser modelo, mas ao mesmo tempo me sentia limitada porque já tinha algumas tatuagens, piercings, cabelo pintado e todas as pessoas com quem eu trabalha me diziam que era melhor ser ‘natural’. Fiquei desanimada. Anos depois conheci o Suicide Girls e fiquei apaixonada, acompanhava os ensaios e tinha muita vontade de fazer parte”.

Bruna ainda descreveu como foi que chegou onde está: “Quando enviei meu primeiro ensaio ele não estava muito bom porque eu não tinha experiência posando e o fotógrafo não trabalhava com isso, mas mesmo assim acabei sendo bem aceita no site e gostando do retorno. Então, resolvi tentar novamente e enviar outro ensaio, que ficou mais ‘a cara’ do site e foi comprado na primeira semana. Aí me tornei uma Suicide Girl oficial, isso há quase 1 ano”, compartilha a SG.

BRUNA
Foto: Andrea Laz

Precisa encarar

E não para por aí. A recrutadora apresenta as condições a que as meninas se encontrarão e no que precisam pensar antes de aceitar: “É um site de modelos, independentemente de ser alternativo, as meninas que posam precisam saber que é necessário ser e querer ser uma modelo para entrar no site. Isso implica em ter uma vida pública na internet, que é importante para divulgar esse trabalho, e também saber lidar com isso, com assédio, etc. Nem todas as meninas com estilo do site são boas modelos, algumas se sentem constrangidas em posar ou têm problemas pessoais, então ser uma SG não é o mais indicado”, explica a Kasha.

A Hopeful Carol Castilioni, 22 anos, trabalha em eventos e diz que não pensou duas vezes antes de decidir mandar seu ensaio – mas confessa que ficou receosa pela reação da família. Ela contou como foi a conversa com os pais: “Minha mãe fica um pouco preocupada com a exposição, não comenta muito sobre isso com os outros, mas me apoia e torce para que tudo dê certo. Já meu pai tem a mente um pouco antiga. Ele me deixa livre, mas ainda confunde um pouco as coisas, acha que esse mundo de eventos e fotos é sempre ligado à prostituição e se preocupa muito com isso, então estou sempre conversando com ele porque sei que ele está certo em se preocupar. Meu namorado já era fã do SG e sempre me acompanhou nos meus trabalhos, então foi o mais fácil de convencer”.

E dá para imaginar o tamanho do assédio sofrido por quem publica os tão famosos “nudes” na internet? Bruna Bruce falou que, sim, o assédio é grande, e também contou como lida com comentários desrespeitosos: “Desde muito nova estive envolvida com redes sociais e aprendi a lidar com isso. Hoje em dia nem perco tempo lendo besteiras, já bloqueio quem é desagradável na hora”.

Carol vê os elogios como um bom retorno, sinal de que “o trabalho está indo bem” e está ansiosa pelo resultado: “Meu set já foi enviado, mas o público só terá acesso daqui a três meses. Preciso de sorte para que recebam bem o set, votem nele e para que o site o compre. Assim, eu me oficializo. Se não rolar com esse, vou continuar tentando, tenho mais dois sets para enviar”.

Apesar disso, as meninas revelam que ganham mais elogios que mensagens inconvenientes. “Recebo mensagens e e-mails todos os dias de meninas contando que se inspiram em mim e como gostam do meu trabalho, é muito gratificante e até engraçado porque, ao contrário do que as pessoas pensam, não são só homens que admiram esse tipo de arte”, relata Bruna.

Carol-Castilioni---
Foto: Yogue Alencar

Aqui é trabalho

Você deve estar se perguntando: “Elas ganham para postar fotos?”. Sim, igual a toda modelo. Mas não é “só” isso. Kasha esclarece que o fluxo de trabalho pode ser duríssimo: “Depois de se tornar uma SG, a modelo tem oportunidades de trabalho fotográfico, marcas de roupas, comerciais, produtos para fazer testes, publieditoriais e clipes de bandas, tudo isso aumenta muito a visibilidade e o trabalho dela. Além disso, pode conhecer pessoas incríveis, ter chances de viajar para shotfest e encontrar outras modelos, fotografar e fazer muitas amizades”.

Sem contar que muitas são novas, estudam e ainda não conseguem viver totalmente da profissão, como é o caso de Bruna: “Trabalhar com isso é uma das coisas que mais gosto, mas infelizmente tenho noção que não é possível sobreviver apenas disso, por isso faço faculdade e levo essa parte da minha vida como um hobby”. Carol também tem outros trabalhos, estuda publicidade.

Ou seja, elas precisam se dobrar para insistir no sonho de fazer o que gostam. E você ainda acha que elas passam o dia todo de calcinha tirando fotos para abastecer as redes sociais?