Há certa coisa peculiar no futebol, algo que consegue despertar sentimentos verdadeiros, de fiéis torcedores. Pessoas que perdem a identidade, e só se reconhecem através das cores e das músicas do time. Vão ao estádio, discutem em bar, vibram com gol e xingam em lances ruins. Essa certa peculiaridade, que não se sabe o que é, desperta uma paixão que dá vontade de berrar, em todos os estádios, o amor pelo seu clube. É algo impressionante e belo.

O que há de impressionante, é observar um cidadão comum, o seu José, que trabalha dia após dia, tem que terminar de pagar a prestação da geladeira, a filha reclama de tudo e tem lá seus outros problemas. No dia de jogo, veste sua camisa e com seu ingresso à mão, vai subindo a rampa do estádio. Nesse trecho, seu José não é mais um cidadão comum, com problemas triviais e vida sofrida. Seu José agora é torcedor, e o grito que ele aguentou a semana inteira, sai em forma de palavrão, xingamento ou felicidade. Torcer nos dá essa chance. De agir como sempre desejamos, gritar quando feliz, xingar quando puto e talvez, uma hipótese, essa peculiaridade do futebol seja agradar a nossa essência, agir por instinto, sem ser demitido, advertido ou agredido. No estádio, nós temos essa liberdade.

E aquele saudoso sentimento infantil de termos o melhor, não importa qual argumento surja. Se o nosso time está na final da Copa do Brasil ou na série D, acreditamos numa possível disputa acirrada caso ele enfrente o Barcelona. Se o Paysandu disputasse, tiraria de letra, afinal, já calou o Boca em plena La Bombonera. Não importa se ele está na série C, é o melhor time do mundo. Assim como o seu time é o mesmo para você. Isso é normal e reconfortante. O futebol nos traz esperança. Esperança que às vezes perdemos na vida, mas carregamos no grito apaixonado e no canto rouco no estádio.