boemio

Aquele cara sentado na mesa de bar, com um copo de cerveja na mão, que está lá desde que se entende por gente, ele é um sábio. Sabe de tudo e de todos, filosofa, sozinho, e fica maquinando pensamentos sobre a vida. A cerveja em sua mão é a porta de entrada para esta conexão com Confúcio, Aristóteles, Nietzche e Chacrinha. Ele sabe disso, você não.

O boêmio também é músico. Foi ele quem primeiro ouviu Tom, Toquinho, Vinícius, Chico…toda essa patota. Eles estavam sentados bem ali, naquela mesa. Ele lembra-se como se fosse ontem, deu umas opiniões e sugestões numa música uma vez. Parece que saiu a “Garota de Ipanema” numa dessas conversas, mas ele não sabe ao certo, estava bêbado.

Ah! O boêmio também mente. Mas, calma. Não é safadeza, nem desonestidade. O boêmio mente em prol da coletividade criativa que um bar proporciona. A mentira dele é profissional, pensada e muito bem arquitetada. Sem a mentira, o bar seria só lamúrias. Ela é importante para manutenção da harmonia do local.

Ele é teólogo, cientista político, chef e técnico de futebol. Uma resposta sempre está na ponta da língua, pena que esta já está enrolada. O sentido da vida? Ele tem uma teoria, ‘tudo gira em torno de tudo, dependendo apenas do referencial pela lei da relatividade. Portanto, se viemos ao mundo foi puramente para beber, porque tudo fica girando…vê mais um chopp?’ Isso nem passa perto dos seus pensamentos terrenos, o segredo está no copo, mas ele não vai dizer.

Esse mestre da sabedoria não se preocupa. Pra que? Ele teria dois trabalhos, se preocupar e se despreocupar. O mundo já anda muito bitolado, com gente batendo ponto e ajeitando o cabelo quando o chefe passa. Pra economizar tempo e beber uma breja, ele apenas não liga pra nada. Seus amigos, fazem parte de uma seita, uma irmandade alicerçada em um pacto de álcool, eles não gostam de ver sangue. São eles que sustentam a mentira do outro, quando sem dinheiro, os outros pagam a conta. São um movimento, lutam pela liberdade e flexibilidade de horário das empresas, e tentam entender porque beber no expediente é mal visto. Tal movimento, é responsável por trabalhar em pensamentos profundos, que terminam, geralmente, no fundo do copo.

O boêmio não tem medo da morte, “Desde que seja morte morrida”, ele só se preocupa com uma coisa. O dono do bar tem que morrer antes dele. Já pensou chegar no céu e não ter ninguém pra vender uma gelada fiada?