garcom
Uma pessoa que tenha honra a zelar trata o garçom com o devido respeito. E não tem desculpa. Este que sempre foi o amigo dos bebuns solitários, serviu de psicólogo e os acalentou com cervejas bem geladas e o mais velho dos whisky’s. O garçom faz parte e é, senão, o maestro da mística que vive-se no bar. Ele é o confidente de poucas palavras e conselhos pontuais. Talvez por amizade, talvez por fcar com medo de você não pagar a conta.

Se você precisar desabafar, beber até cair, celebrar ou somente queira bater um papo, se quiser um pão bem quente com manteiga a beça, um guardanapo ou um copo d’água bem gelada, não tem problema, o seu amigo estará ali. Problema só se não tiver dinheiro, porque garçom é bacana, mas fiado é só quando aquele olho pintado na parede piscar. Sua amizade é fiel e juramentada, com a mão estendida e bem aberta, segurando a bandeja. Essa que carrega o elo desse afeto.

Torcedor de todos os times e bom de esquiva de perguntas que podem causar desentendimento, o Garçom é um diplomata. Chamá-lo pelo nome do time que você torce não o fará querer discutir sobre futebol, no máximo, um sorriso alegre quando acertar e um comentário sobre o último jogo. Caso você erre, não se preocupe, o grande mediador de conflitos e desenganos no bar não o tratará mal, apenas dará um sorriso amarelo, mas sem ser mal educado e sairá rindo, lembrando da última derrota do seu time. E quando lhe fazem uma pergunta perigosa? “Zeca, não é verdade que viram a mulher do Pedro tomando uma com uns caras aqui?” Ele já fecha a cara, termina de passar o pano na mesa e anuncia que vai trazer a próxima rodada. Entra na cozinha e se lembra do dia que a dona Cristina não só estava tomando uma, como saiu de mãos dadas com um dos rapazes. Mas ele não vai falar nada. Põe o pano no braço, recarrega a bandeja e entrega o chopp mais gelado ao Pedro, sem que ele perceba a atitude de compaixão. O garçom é um amigo discreto.

Mesmo sabendo da áurea fraterna que rodeia o garçom, existem aqueles grosseiros, que têm complexo de superioridade, pois estão sentados em montes de moedas que produzem um pequeno relevo e, por isso, sentem-se no direito de tratar mal o bom companheiro. Não entendem que não é dinheiro que compra o respeito. E na mais inútil tentativa de demonstrar sua “masculinidade” à mulher que o acompanha, ele trata sem cerimônias o amigo de tantos poetas bêbados, escritores desamparados e músicos que buscam inspiração. Afaste-se desse homem, mulher. Pois se ele tem coragem de tratar com desrespeito quem lhe serve uma boa bebida, sem pestanejar, imagine o que ele fará com você. E deixe que esse babaca amargue a solidão e quando estiver sentado no balcão, buscando a resposta para tantas perguntas, um copo lhe será oferecido, pela mão do amigo de todas as horas. Com ele não há ressentimentos.

Depois de ser chamado de General, Comandante, Paysandu e Chefia, o garçom despede-se com um sorriso e colocando no bolso a gorjeta – Nem quero entrar nesse assunto. Porque se ele dedicou-se a lhe tratar bem, a gorjeta é sinal de educação – O nosso amigo toma seu verdadeiro posto e vai terminar de ajeitar o bar. Amanhã virão poetas, escritores, doutores e muito mentirosos, ocupar as mesas e cadeiras que ainda exalam as boas amizades e histórias vividas e contadas ali.