consertar
O homem é capaz de qualquer coisa até que o mesmo se prove o contrário. Não importa se ele nunca foi ao lugar que vocês estão tentando ir. Nem se a resistência do chuveiro queimou. Ou se os botões do microondas pararam de funcionar. Ele sabe chegar, ele sabe trocar e sabe consertar. Até o momento em que ele perceba que não.

É um processo, entenda. Nossos ancestrais resolviam tudo na época das cavernas, sem Google, sem perguntar ao vizinho. Era na mais pura base do instinto e da confiança em si. Não podemos deixar que, nas nossas cavernas atuais, uma mera bifurcação nos tapeie e faça-nos seguir perdidos na estrada. Parar para perguntar? Jamais! Vai contra toda a nossa essência. Afinal, o importante é chegar, se demorar 1 ou 5 horas, é experiência.

Tudo que pedimos, mulher, mãe, namorada, amigos, filhos, é que vocês dêem o tempo que precisamos. Gritar e espernear dizendo que não temos o controle da situação, cuja qual é uma honra controlar, só atrapalhará todo o processo e nos deixará furiosos e com a moral abalada. Pra que chamar um eletricista, se eu tenho mãos, escada, status de macho alpha e pleno funcionamento cerebral? Trocar a resistência do chuveiro é moleza.

Quando damos sorte e realmente conseguimos resolver a questão, preparem-se que durante toda a semana não haverá outro assunto, apenas serão exaltados o nossos feitos milagrosos perante o insolente microondas que custava a funcionar. E como fomos impiedosos ao aplicar toda nossa sabedoria na resolução desse problema. Um novo homem ressurge nesses momentos, e nem mesmo um forno com defeito nos deterá.

A hora da verdade chega. Vocês não precisam se preocupar. Um dia a investida não dá certo: a comida queima e o ar-condicionado que não gela sorri triunfante. É quando percebemos que não somos capazes de tudo. Quando abaixamos a cabeça e pensamos em uma solução, para colocar a culpa no cachorro, na crise da Ucrânia, em qualquer coisa, menos na nossa incapacidade de controlar aquela situação. Cabisbaixo e, muitas vezes, secretamente, pedimos ajuda, como quem se rende perante um exército mais poderoso. Perdemos a batalha.  Enquanto o marceneiro conserta a prateleira, ou o técnico instala o novo chuveiro, fitamos com seriedade o objeto que nos causou aquele constrangimento e deixamos uma certeza, ele ganhou o pior dos inimigos.