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Em regra, diz-se que não apostar no poker pode demonstrar que você não tem uma mão boa o suficiente. Porém, essa “regra” extra-oficial pode ser explorada contra os seus adversários, quando você faz as coisas pelos motivos certos. Hoje é dia de pensarmos em uma situação específica do poker que pode rapidamente ser aplicada por vocês em seus jogos no dia-a-dia. Vamos pensar um pouco, então?

Estava jogando uma mão no blind 10/20 quando dois jogadores antes de mim deram limp. Eu aumentei para 80 com AQ e tomei dois calls. O flop veio J44, tudo de naipes diferentes. Os dois jogadores antes de mim deram check. Veja bem, eu tenho uma mão com certa força mas não existem muitos bons motivos para apostar nesse momento. Se eu aumentar, acabo tomando call de mãos possivelmente melhores que a minha, como pares acima de T e AK, além de Jx e 4x. Se não aposto aqui, posso estimular a mente dos meus adversários a pensarem que eu também não tenho uma mão forte. Pensando nessa segunda hipótese, que me pareceu mais óbvia, preferi dar check também.

O turn trouxe um 6, que formou um flush draw na mesa. O primeiro jogador deu check novamente enquanto o segundo apostou 150 num pote com 250 fichas. Nesse momento, eu dei o call porque achei que ele teve todo o incentivo para blefar essa mão, o que me deixaria melhor que ele em um número grande de mãos possíveis. Eu não sabia se ele estava blefando ou não mas eu sabia que ele poderia estar e isso foi o suficiente nesse momento. Minha mão é forte o suficiente para vencer todos os blefes dele nesse momento e eu ainda tenho chance de acertar algo no river que me ajude. Deu para entender a lógica aqui?

Com o fold do outro jogador, o river trouxe um segundo 6. Meu oponente insta-betou 350 fichas aqui. Nessa altura, aplicando o range que dei a ele, eu tenho pelo menos 60% de chances de estar na frente, e aqui fica evidente identificar o range de mãos que seus adversários jogam. Preciso pagar 350 para recolher 900 fichas e é o último cálculo que eu preciso, já que acertando 1/3 das vezes eu fico empatado, o que me dá ainda mais chances matemáticas para o call. Então resolvo pagar e ele mostra um K9, um flush draw que não vingou. Puxo o pote!

Isso deixou uma lição grande na parte matemática. Do lado dele, uma nova lição: ao apostar no turn e no river por blefe, você pode ter excedido um pouco o limite. A aposta no turn prontamente paga por mim pode indicar a ele que somente boas mãos pagariam naquele momento, mesmo eu tendo dado apenas check no flop. Ele tentou comprar o pote e não conseguiu. Fazer o mesmo no river pode ter um sido um erro, mesmo que de poucas fichas. O longo prazo te faz entender que perder um pouco hoje jogando errado pode te fazer perder muito jogando errado sempre. Talvez o melhor para ele teria sido um check/fold ou até mesmo um check/call river, se ele estivesse confiante que eu estaria blefando. Jogar fora de posição piorou essa decisão para ele, também.

Matemática, probabilidade, posição, lógica e um pouco de coragem. 5 fundamentos diferentes que tornam o poker um esporte da mente tão complexo que as vezes é até difícil explicar em detalhes. Deu para entender o exemplo aqui? O que achou, vai começar a pensar um pouco mais em cada detalhe da mão assim que for jogar? Espero que sim. Nos vemos na semana que vem!