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Despachamos a nossa nova repórter para acompanhar um bate papo com o escritor Marcelo Rubens Paiva, na semana passada em São Paulo, sobre o universo masculino, e a eterna batalha entre homens x mulheres. Confira:

“E aí, comeu?”. Você já deve ter perguntado ou respondido isso em alguma roda de amigos. Foi o que o escritor Marcelo Rubens Paiva disse a um colega de faculdade e o inspirou a escrever a peça, sucesso de bilheteria em 1997 e que virou filme em 2012. Estrelado por Bruno Mazzeo e Marcos Palmeira, foi o longa brasileiro mais visto naquele ano. Na última quinta (24), Paiva lançou na Livraria da Vila, em São Paulo, a versão em livro do título que provocou a fúria de feministas, mas que está longe de ser machista.

O autor participou de um bate-papo com seus amigos, o escritor Reinaldo Moraes e o diretor Mário Bortolotto, e contou como surgiu a ideia de retratar (de forma mais realista possível) o papo que normalmente acontece entre os homens.

Marcelo Paiva narrou que no tempo em que estudava na Califórnia, há 20 anos, estranhou a forma como os homens lidavam com assuntos relacionados às mulheres e outros que já eram tão mais comuns aqui no Brasil.

“Tinha uma romena muito gostosa na faculdade, todo mundo só falava nela, e eu conheci um cara que conseguiu pegar a tal romena. Um dia eu estava andando com ele e ela passou de bicicleta. Fiquei olhando aquela mulher sensacional e quis saber alguma informação extra do cara. Virei e perguntei: ‘E aí, comeu?’. Ele respondeu: ‘Tivemos um relacionamento, mas não deu certo por incompatibilidade de valores’. E eu fiquei pensando ‘que merda de valores são esses, cara?’ Isso ficou na minha cabeça quando voltei para o Brasil. Eu estava me separando, tinha mais dois amigos em crise, achei que dava uma boa história”.

Caretice americana

Segundo Marcelo, no Brasil há um equilíbrio: “Somos uma sociedade pervertida sem ser grosseira; os homens daqui são apaixonados pelas mulheres. Diferentemente dos gringos, que não sabem chegar na mulherada”. Reinaldo Moraes e Mário Bortolotto concordaram que o discurso “politicamente correto” que acontecia nos Estados Unidos naquela época chegou ao Brasil com 20 anos de atraso.

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E aí, comeu? é um gerador de preconceito e críticas. “As pessoas imaginam que seja uma peça com homens sacanas e piadinhas toscas. É muito mais que isso”, desabafa Reinaldo. Marcelo resume: “A peça é sobre o ato de se falar o que pensa”. É na lata. Chega a ser de assustar qualquer mulher (e assusta). Para Reinaldo, o uso da forma coloquial é responsável pelo preconceito: “Se você cria um personagem que precisa falar assim, ele vai falar. As pessoas confundem, acreditam que o escritor é que é machista, homofóbico. É o personagem! Mas as feministas caem matando”. Mário já é mais radical e revela que “se o cara aparecer no bar com essa de ‘politicamente correto’, vai ser colocado pra fora com certeza”.

De homens para mulheres

O livro/filme/peça resume o mundo masculino perdido e decadente de três amigos que não conseguem ocupar seu novo lugar diante das mulheres que amam. Honório, Fernando e Mattar estão sempre na mesa do bar falando de sexo, mulheres, fazendo confissões e dividindo experiências e curiosidades sem a menor preocupação com a forma e com as palavras usadas para fazer isso.

Perguntei ao Marcelo se ele muda o comportamento dele quando está perto de mulheres e se ele acredita que os homens façam isso hoje. Ele me respondeu que sim, muda, mas que muitas mulheres já aceitam e brincam no mesmo tom, sem neurose, sem se ofenderem. E mais: Marcelo disse que o público que mais ri nas apresentações da peça é o feminino.

Se você é homem e vai ler o livro, vai se identificar com os dilemas que a história vai apresentando. Se você é mulher, muita coisa pode começar a fazer sentido pra você. De qualquer forma, é bom estar preparado para encarar algumas verdades e se divertir sem esperar que qualquer um dos temas seja aprofundado ou resolvido. Mas rende uma boa conversa pra um chope no bar.



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