Se você é do tipo que usa cantadas de pedreiro no nível “Gata, não é seu aniversário, mas você tá de parabéns”, tem muito o que aprender com O Livro das Mulheres Extraordinárias, de Xico Sá, que reúne declarações de amor e elogios escancarados do escritor a mais de 100 mulheres brasileiras, do teatro, da TV, da literatura, da música, da moda e do cinema. O lançamento em São Paulo aconteceu na Livraria da Vila, na quinta-feira passada (28), e conversei com o autor sobre o que acharam as homenageadas – e alguns maridos.

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Luana Piovani, Taís Araujo, Sabrina Sato, Cléo Pires, Gisele Bündchen, Vera Fischer. Não faltou diversidade entre as escolhidas de Xico Sá. O que não faltou também foram elogios por parte do cronista. Um romantismo sincero, sem papas na língua, sem rodeios e sem limites. “Foi um tesão fazer um livro de cantadas literárias. Melhor que a aceitação tem sido ótima, inclusive das mulheres homenageadas nas crônicas”, conta Xico.

As referências e citações também são variadíssimas. Vão de grandes escritores internacionais, como o italiano Alberto Moravia, passam pelo sociólogo Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues, até Waldick Soriano e Sidnei Magal.

A lista de mulheres vai fazendo o leitor achar que Xico não esqueceu ninguém. Fiquei particularmente feliz pela lembrança das mulheres que não costumam ser referência de beleza e desejo. Estão lá também as jornalistas e escritoras. Ilze Scamparini, Patrícia Poeta, Marília Gabriela, Glória Maria. “Os homens gostam das mulheres que escrevem”, começa a crônica para Lygia Fagundes Telles. Confesso que arrancou um sorriso dessa simples colunista que vos escreve.

O livro começa com um pedido de casamento a Luiza Brunet, logo de cara. Pede que canonizem J.R. Durán (fotógrafo que fez grandes ensaios para a revista Playboy); defende uma “política pubiana sustentável, apenas aparável” citando Cláudia Ohana e Nanda Costa; declara Fernanda Lima como sendo uma “mulher padrão Fifa”; confessa ser Sônia Braga a mais desejada de sua vida; pede licença ao Professor Pasquale para explicar suas expressões mais “grosseiras” e a bênção de Vinícius de Moraes.

A riqueza está na propriedade com que Xico faz e fundamenta seus elogios. Não são jogados às páginas para agradar. Ele conta o que era dito na mesa do bar quando elas passavam, para onde eram os olhares dos homens, as reações, as onomatopeias, as brincadeiras; a música que tocava quando viu uma e outra pela primeira vez, a ambientação, cheiros, cores e sabores.

Encontrei com Xico no lançamento do livro, em São Paulo, e conversamos um pouco sobre como o assunto do elogio escancarado é delicado. Em meio a uma fase de tantos discursos antimachistas, perguntei se alguma das homenageadas se sentiu incomodada com alguma coisa e a resposta foi que, até agora, não. E sobre os maridos e namorados dessas mulheres, pasmem: “Eles estão amando, até mais que elas. É bom e excitante ver outro homem, principalmente no plano da escrita (platônico), elogiando nossas mulheres”, confessou.

Em outra ocasião, Marcelo Rubens Paiva (que fez a orelha do livro de Xico) falou que os brasileiros são apaixonados pelas mulheres, pela arte da cantada, da abordagem bem feita. Xico concorda: “O Marcelo está certíssimo. Estou com ele. Já fui muito acusado de machista por causa das crônicas derramadíssimas pelas mulheres. Pode ter sim um quê de machismo no sentido de endeusamento da figura feminina, mas jamais falta delicadeza”. A reclamação delas, em compensação, é um tanto curiosa: “Tem muita mulher brava por não ter entrado no livro. Mal sabem que já tenho um segundo volume pronto”, revelou.